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POR QUE SE ESPERA TANTO DE RAQUEL DODGE?

DIGA-ME COM QUEM ANDAS… E EU IMAGINO PRA QUE LADO A COISA PODE CAMINHAR

Procedimento inaugurado por Lula, desde 2003 o escolhido para comandar a Procuradoria Geral da República era o primeiro colocado de uma lista tríplice votada pela própria categoria, mesmo não havendo nenhuma lei que obrigue o presidente a fazer isso. Tanto que Michel Temer quebrou a corrente e escolheu Raquel Dodge, a segunda mais votada, deixando de fora o procurador Nicolau Dino, que foi o mais votado.

A carreira de Raquel Dodge não tem nada de excepcional. Entrou para o MPF em 1987 e teve sempre como referência sua atuação em prol de grupos indígenas, defesa do meio ambiente e defesa dos direitos humanos, tendo como foco o combate ao trabalho em situação análoga à escravidão.

Na esfera criminal, suas duas atuações mais relevantes foram a investigação do esquadrão da morte de Hildebrando Pascoal, no Acre, que terminou com a prisão do “deputado da serra elétrica”, e a investigação do mensalinho do DEM que envolveu o ex-governador José Roberto Arruda e que teve como resultado a impunidade de todos os envolvidos. Ninguém ficou preso e ficou tudo por isso mesmo.

Então o que credencia Raquel Dodge a ser tão diferente de Rodrigo Janot?

Ela foi a segunda mais votada na lista da categoria, portanto não é a que obtinha mais confiança do conjunto dos procuradores do Brasil.

Foi nomeada por Michel Temer, o primeiro presidente da república denunciado por corrupção no exercício do cargo. E ainda longe de assumir o cargo, foi recebida pelo presidente em mais uma daquelas visitinhas sorrateiras depois das 22 horas no Palácio do Jaburu, mesmo itinerário usado por Joesley Batista.

Teve a indicação do ministro Gilmar Mendes do STF, que já não sabe mais se é juiz, advogado ou político, mas que com 100% de certeza está envolvido politicamente com todos os que são explicitamente contra a Lava Jato, tendo sido inclusive flagrado em grampo da PF quando tratava com o investigado Aécio Neves de uma espécie de “tráfico de influência branco” sobre o senador Flexa Ribeiro que tencionava votar contra a proposta de abuso de poder.

Raquel Dodge não apenas teve a indicação e anuência de alguns dos senadores do PMDB ultra denunciados pelo atual PGR, como teve com eles, e todos os outros, a sabatina mais leve na comissão e o placar mais folgado do plenário para o aval da casa para a indicação presidencial: 74 votos favoráveis contra 1 contrário. Na sua recondução ao cargo, Janot passou com um placar de 59 a 12.

O fato real em jogo é que não existe nenhuma indicação ou garantia de Raquel Dodge será melhor do que Rodrigo Janot. O episódio do mensalinho do DEM, sem que ninguém tenha ficado preso, também não é indicativo de nada, mas é um alerta.

As pessoas, com razão, ou até sem, não gostam de Rodrigo Janot, suspeitam de sua proteção ao petismo, suspeitam de seu combate feroz contra Temer e seu grupo e querem vê-lo pelas costas. E esse encontro dele com o advogado de Joesley Batista no dia seguinte ao pedido de prisão do empresário, que ele mesmo fez, só reforçam a antipatia e suspeitas generalizadas. Mas daí a imaginar que a indicada por Temer e avalizada por seu grupo será o oposto de Janot é uma distância gigantesca.

Infelizmente, o povo brasileiro continua procurando seus heróis, mesmo que todos eles venham morrendo seguidamente de overdose. E como a heroína da vez é a Mulher Maravilha, nada como encarnar na PGR uma amazona, mesmo ela tendo defendido a redução do número de procuradores que podem ser cedidos para operações como a Lava Jato e o aumento de salários pleiteado pela categoria.

Eu, por enquanto, antes de esperar de Raquel Dodge, penso ser mais prudente esperar por Raquel Dodge. Depois falamos no assunto.

 

No Ponto Do Fato