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POR QUE NÃO SAÍMOS DO LUGAR?

ENQUANTO A DENOMINADA ESQUERDA É CAPAZ DE SE UNIR ATÉ EM TORNO DAS ATROCIDADES, A CHAMADA DIREITA É INCAPAZ DE SEQUER SE AGRUPAR DIANTE DAS OBVIEDADES

Talvez o senso de autodefesa, ou sobrevivência, seja a maior virtude que se pode ver nos que se alinham ao discurso de esquerda. Prova disso foi a capacidade que tiveram para atrair empresários como Emílio Odebrecht, que teve no regime militar, portanto a direita, o impulso para transformar sua empreiteira num dos maiores conglomerados empresarias do país.

Mas não foi só ele. Todas as grandes empreiteiras, bancos e grandes representantes da sociedade civil, que movimentam o grosso do dinheiro que circula no país, também se aliaram. E durante os 13 anos e meio de governos petistas a direita se calou, por acomodação ou comodismo.

Quem tem medo da esquerda? Quem tem medo da direita?

Por mais acirrados que estejam todos os ânimos, o Brasil para pôr uma lacuna ideológica. O atual presidente é fisiológico e está pouquíssimo preocupado – como sempre esteve – com posicionamentos ideológicos. Ele apenas busca apoio para manter ativa a fisiologia que caracteriza seu partido desde que assumiu o poder com Sarney nos idos de 1985. O mesmo Sarney que até então tinha sido um árduo defensor (e grande beneficiário) dos governos de direita desde 1964.

Esse vácuo ideológico se pronuncia pela falta de uma pauta para o país, acima dos partidos e seus vieses. Surge então uma constatação ainda mais estranha disso tudo: os maiores avanços em reformas para o país não vieram da direita e nem da esquerda que esquentou a cadeira de comando por 13 anos e meio, mas do fisiologista de plantão, tão envolvido em corrupção como qualquer outro que assim esteja.

A direita que timidamente reage, principalmente via internet e redes sociais, ainda não sabe se se opõe a isso ou se encampa a ideia de que, mesmo corrupto, os avanços obtidos justificam a permanência de Michel Temer e sua equipe à frente do governo até 2018. E é incapaz de chegar a uma pauta mínima e se unir em torno dela.

A esquerda, que escandalosamente também reage, muito mais nas ruas e nos setores organizados do sindicalismo e movimentos sociais, se vê na obrigação de defender atos e pessoas indefensáveis, sem argumentos reais para essa defesa, porque não produziu em 13 anos e meio o que o fisiologismo fez em pouco mais de um ano. Mas faz a defesa de maneira unida, coesa, não importa o tamanho do absurdo que gera essa liga.

Por mais que reaja, a direita ainda tem vergonha de se assumir “direita”, como se isso inviabilizasse a convivência ou a realização de negócios entre um lado e outro.

Ao contrário, a esquerda não tem, e nunca teve, a menor vergonha de assumir suas bandeiras, tendo como método a prática do constrangimento, do uso da mentira, e até mesmo a inviabilização da convivência ou de fazer negócios com quem não ceda aos seus caprichos e necessidades.

Não saímos do lugar porque o Brasil ainda não é a prioridade de todos, nem de esquerda, nem de direita. A primeira pelo estrondoso fracasso do projeto de poder, no qual o Brasil já tinha ficado de lado desde o início. E a segunda porque ainda não sabe se reunir em torno de uma ideia única, ou de uma verdadeira ideologia ou até mesmo em torno de um candidato.

Ainda vai demorar muito tempo para que os dois lados, se é que realmente existem ideologicamente, entendam que um país se faz com direita, esquerda e centro convivendo harmoniosamente dentro de seus espaços, no governo e na sociedade. E que não há motivo para se envergonhar de ser de uma direita ou de esquerda honestas e verdadeiramente desejosas de um país melhor para os brasileiros.

Sejamos cuidadosos com as atrocidades, com as obviedades e com a forma fisiologista que isso tudo chega até nós.

Um bom sábado!

 

No Ponto Do Fato