0

O TIC TAC DO DOMINÓ

É verdade que poucos são os relógios que fazem tic tac, como poucos também são os relógios usados para ver a hora. Quem tem um bom smartphone, por exemplo, acaba usando relógio de enfeite de pulso.

Mas, o som do tic tac, dependendo da condição psicológica da pessoa, pode ser ouvido interiormente, talvez ecoado do relógio biológico.

Quem está sob pressão, esperando por alguma coisa a qualquer momento, consegue escutar. E quando escuta, o barulho é ensurdecedor.

Para o ex-presidente apedeuta de nove dedos da alma mais honesta nunca antes vista nesse país, deve ser como uma escola de samba. Afinal, faz tempo que pode ser a qualquer hora, e ele mesmo sabe que já passou da hora.

Talvez a prisão seja para ele mais libertadora do que todos imaginam. A tortura de esperar por um sabido inevitável só se torna pior quanto mais evitado ele é.

A prisão será o fim de uma farsa, o fim de um esforço pessoal para criar e sustentar mentiras que não mais se sustentam. Não será mais possível, nem necessário, dar respostas dissimuladas a cada cinco minutos, nem confrontar algozes com cara de valente, enquanto o próprio reto passa aperto.

Atrás das grades some o medo do japonês chegar, mas talvez continue ansiedade, caso ele seja o responsável pelo café da manhã ou pela condução ao banho de sol. Ah! O banho de sol! Até isso ele poderá fazer sem ter que se preocupar em levantar tapumes para proteger sua privacidade.

Talvez tenham alguma razão aqueles que defendem que ele faça as necessidades nas calças até o dia de sangrar nas urnas. Mas não é justo com o que se espera de justiça no país, com o que se espera de exemplo para a construção de algo melhor e igual para todos, mesmo que vá levar cinquenta anos para limpar a quantidade de cacas escorridas das calças do nove dedos enquanto conseguiu evitar a prisão.

E como sugestão, que ele arrume um relógio de pulso, de corda, porque na cadeia, teoricamente, não pode ter celular. E dar corda em relógio não deixa de ser um bom passatempo, especialmente para quem mal sabe ler e, dizem, escrever.

Ainda bem que sempre tem o dominó.

 

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.