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O BRASIL TAMBÉM DEVERIA COMEMORAR O 9 DE JULHO JUNTO COM SÃO PAULO

A data comemora a insurgência do estado de São Paulo contra o resto do Brasil, o que ficou conhecido como a Revolução de 1932, ou, para historiadores que tendem a menosprezar esse pedaço da história, Guerra Paulista.

O objetivo era simples: derrubar Getúlio Vargas e fazer uma nova constituição para o Brasil. Mas não era de graça, nem por graça, e nem mesmo como meta separar São Paulo do Brasil.

Fica mais fácil entender isso quando se sabe que dois anos antes, 1930, Getúlio Vargas impediu a posse de Júlio Prestes (comunista declarado), fechou o congresso, assembleias estaduais, cassou a constituição de 1891 e prometeu convocar uma constituinte para que o Brasil tivesse uma nova constituição. E não fez.

Vargas passou a governar por decreto, com poderes absolutistas, podando a autonomia dos estados na base da canetada e gerando um bocado de insatisfação para todos os lados. E São Paulo, eterno motor da economia brasileira, encheu o saco primeiro.

Entre outras coisas, não aceitava que não fosse convocada a nova constituinte, nem os interventores militares que Getúlio Vargas colocou em cada estado para controlar as ações dos governos.

O que era para ser uma “revolução organizada”, acabou virando um bumba meu boi quando quatro estudantes paulistas foram mortos pela polícia de Vargas. E o pau quebrou, gerando um movimento chamado MMDC, cuja sigla foi criada com as iniciais dos nomes dos tais estudantes.

Quando começou a armar a revolução, São Paulo tinha a promessa da ajuda do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e do Mato Grosso, que ainda não tinha sido dividido. Mas quando “na hora da onça beber água”, só o Mato Grosso ficou com São Paulo. Os gaúchos não só não ajudaram, como ainda partiram para cima de São Paulo com o resto do país.

Como eu não sou historiador, o resumo dessa revolução é que a luta não durou 3 meses e São Paulo abriu o bico. A insurgência foi sufocada, os paulistas enquadrados e fim de papo.

Olhando pelo lado óbvio, foi só isso que aconteceu. Mas não foi.

Naquele momento Getúlio se viu forçado a atender algumas das reivindicações dos estados, acabando por convocar a constituição de 1934 e cassando essa nova constituição em 1937, quando sapecou uma nova constituição de próprio punho e se tornou ditador até 1945.

E por que o Brasil deveria comemorar afinal o 9 de julho se a história faz dela uma data tão paulistana?

Porque ainda que a tal revolução tenha durante apenas 3 meses, ela foi um marco da resistência da democracia brasileira.

São Paulo não se insurgiu pela independência, mas pela união. Se aquele movimento não tivesse acontecido, talvez pudéssemos hoje nos referir às “décadas Vargas” e não usar a expressão “a Era Vargas“, como tanto se fala, pois Getúlio teria se tornado ditador declarado já naquele momento sem nenhuma resistência. Sabe-se lá o que isso poderia ter gerado para o futuro.

São Paulo se rebelou contra a quebra do pacto federativo, que é o que nos une como nação. Um pacto que já nasceu mal feito porque foi mal copiado do modelo americano e muito mal adaptado para a realidade brasileira. Basta ver que pelo pacto brasileiro atual é impossível que um estado deixe a união, enquanto no modelo americano isso é possível desde que 28 dos 50 estados apoiem e aprovem.

O mais danoso para o nosso modelo de federação foi não ter copiado o sistema tributário/fiscal que concentra o dinheiro nas cidades e estados, e a forma de autonomia dos estados, podendo criar e gerir suas próprias leis.

Comemoremos o 9 de julho. Quem sabe essa história não nos inspira a pensar num futuro mais decente?

Bom domingo!

P.S – pontuei algumas citações com os respectivos links, caso alguém seja curioso como eu.

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.