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NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM STF, TINHA UM STF NO MEIO DO CAMINHO

Quando a Operação Lava Jato começou, dava-se pouco crédito a ela. Poucos acreditavam que aquele pudesse ser o começo de um novo Brasil. E à medida que ela foi evoluindo, criando operações filhotes, elevando o moral da justiça de primeira instância, outros juízes sentiram-se juízes o suficiente para encarar outros poderosos, e outras ações da Polícia Federal foram deflagradas.

As poucas palavras e muitas ações de Sérgio Moro deram ao Brasil uma oportunidade de resgatar um patriotismo que nem a última Copa do Mundo, no próprio Brasil, conseguir resgatar.

A pátria de chuteiras passou a saber dizer a escalação dos ministros do STF e ser incapaz de dizer cinco nomes do time canarinho cinco vezes campeão do mundo. No lugar de faltas, pênaltis, escanteios e carrinhos começamos a falar de habeas corpus, ações diretas de inconstitucionalidade, questões de ordem, liminares.

Finalmente, pararam de xingar o juiz; e começaram a xingar os infratores, os fazedores de cera, as trocas de passe sem produtividade.

A participação ativa do Ministério Público Federal, representada por seus jovens e não tão jovens procurados, todos muito eficientes, dava ao processo, mas principalmente ao povo, a garantia de que “nunca antes nesse país” os poderosos pagariam por seus crimes. Nos fizeram acreditar nisso. E acreditamos.

Só que existe o tapetão. Mais que isso, os puxadores de tapetes e tapetões.

E por mais longe que tenha ido até agora a Lava Jato e seus filhotes, por mais certeiros que tenham sido os juízes que se redescobriram juízes e as operações que deflagraram com a PF, por mais hábeis, técnicos e patriotas que tenham sido os procuradores novos e não tão novos, quando chega o tapetão tudo pode acontecer. E aconteceram, estão acontecendo e acontecerão.

Um erro lá atrás talvez tenha sido o grande definidor de tudo isso. Não prenderam Lula. Por zelo ou por medo, por falta de provas ou falta de coragem, não prenderam. E eles criaram essa expectativa em todos nós, especialmente os procuradores, jovens e os não tão jovens. Sequer apresentaram ao juiz Sérgio Moro um pedido de prisão. E não explicam o porquê sim ou por que não.

Soltaram José Dirceu, e em poucos dias de liberdade o grande articulador político (e cérebro que sempre pensou por Lula) ou terrorista político, jogou suas cartas na mesa, e chegamos até aqui.

Hoje, a população não apenas escala os juízes do STF como xinga os 11. E continua xingando os infratores.

Descobriu que tal qual o futebol a justiça brasileira também vive de resultados, e que os cartolas continuam sendo mais importantes do que a torcida e o próprio esporte. E que tapetão é tapetão não importa o chão que ele pretenda cobrir ou proteger.

O mineiro de Passa Quatro solto ajudou, de propósito ou não, o mineiro de Belo Horizonte a não ser preso.

E pedindo licença poética a um grande mineiro de Itabira, que, como mesmo espanto, encerro essa reflexão. Perdão Carlos Drummond de Andrade.

No meio do caminho tinha um STF
Tinha um STF no meio do caminho
Tinha um STF
No meio do caminho tinha um STF

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um STF
Tinha um STF no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma STF.

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.