0

MUITO ALÉM DOS 140 CARACTERES

O que será de um país que não reage?

Não reage o pobre porque diz que não sabe, não reage o rico porque sabe demais, não reage a classe média que prefere se fingir de pobre na atitude, mas cheia de riqueza na sabedoria.

Não reagimos porque não sabemos como reagir. Não fazemos a menor ideia.

Através das redes sociais, inundamos telas de computadores e smartphones expressando esperança, revolta, ódio, tristeza, bradando soluções e exigindo cabeças; mas falamos para nós mesmos, e isso acontece em todos os grupos sociais, não apenas nas redes.

Evangélicos falam para evangélicos, católicos para católicos, esquerdistas para esquerdistas, direitistas para direitistas, twitteiros para twitteiros, facebookeiros para facebookeiros, negros para negros, brancos para brancos, sem extrapolar o círculo que os envolve. Porque estamos esfacelados como nação.

E mesmo esfacelados, não reagimos.

O que vimos acontecer nessa sexta-feira, dispensa comentários sobre outros graves episódios da semana. Nada pode ser mais grave.

Não se tratou de impunidade. Não se tratou de corporativismo.

Assistimos, passivamente, a cada vez mais banalizada constituição federal ser rasgada ao vivo pela televisão e pela internet. Por um ex-presidente do Supremo Tribunal Federal e magistrado da casa há 15 anos.

O que vimos acontecer nessa sexta-feira foi o maior espetáculo de autoritarismo depois do famoso episódio no qual o General Newton Cruz humilhou um jornalista diante das câmeras, obrigando que o mesmo pedisse desculpas ali e depois o levando preso. É a isso que se compara a atitude de Gilmar Mendes.

O mesmo ministro Gilmar Mendes que há poucos meses defendia o combate ao que ele mesmo chamou de “cléptocracia”, fez deu seu aval à mesma no Tribunal Superior Eleitoral, carimbando, assinando embaixo.

Fica difícil dizer se é um problema de ego, de índole autoritária, de compromisso moral com os imorais, de falta de decoro, de quebra do código de ética da magistratura, de ato inconstitucional, de crime contra a pátria ou se apenas se trata de um canalha imoral cujo nome possa estar associado a algo mais do que apenas aliviar a canalhice dos outros.

E mesmo assim, tivemos um sábado pacífico, passivo, passado. Ainda não entenderam que indignação não é como jogo de copa do mundo que tem dia marcado para acontecer.

Uma coisa, penso eu, é irrefutável e creio que todos sabem, mesmo não reagindo: o Brasil não vai mudar se nossa indignação e desejo de mudança ficar restrito ao número de caracteres que uma rede social permite.

Todas são extremamente importantes. Mas chegou a hora de entendermos que precisamos ir além, nem que seja dos 140 caracteres.

 

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.