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MICHEL TEMER E RODRIGO JANOT – ENTRE DENÚNCIAS E MINÚCIAS

NA INFINITA CAPACIDADE DO BRASILEIRO DE SE REINVENTAR, ESTAMOS REINVENTADO O RIDÍCULO.

Tratar do mérito da nova denúncia de Michel Temer é chover no molhado. Basta ver que dê dos denunciados apenas Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco são os únicos que não estão presos, muito provavelmente apenas pelo foro privilegiado. Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, linha de frente dessa facção da ORCRIM, estão presos. Cunha disposto a falar. Geddel do jeito que chora e tem medo dos outros presos da Papuda, não deve demorar para querer falar também.

A parte mais interessante dessa história é que a denúncia não importa, muito menos quem está dentro dela, menos ainda o fato de que outros já estão presos preventivamente, um deles, inclusive, com condenação em primeira instância. Prisões feitas com base em delações e investigações que comprovam os fatos. Prisões que não se sustentariam sem base legal e farto arsenal probatório.

Mas nada disso importa. O que importam são as minúcias.

Ninguém se interessa em discutir que os fatos narrados nessas denúncias são de conhecimento público, muito menos se surpreende com os fatos e personagens. E nem mesmo com a demora com que as denúncias foram feitas ou com a gravidade do que elas revelam.

As pessoas estão preocupadas apenas em defender seus pontos de vista e seus bandidos favoritos. Parece impossível para o brasileiro que possa desprezar a todos em pé de igualdade. A coisa rola sempre no “Janot é bandido, Raquel Dodge vai mudar tudo”, ou “Temer é bandido, mas a economia melhorou”, ou “Aécio é inocente e Joesley é bandido”. Que coisa ridícula.

A realidade é que nada disso se resolverá nas denúncias. São as minúcias que contam, e servem a quem acusa, a quem se defende, e, por incrível que pareça, são usadas por ministros do STF para tratar as acusações de acordo com quem está sendo acusado. Cria-se um clima tenso de desafetuosidade intensa, personalizam-se as imputações de crimes, e vai ficando tudo por isso mesmo.

Hoje temos um congresso que dita a pauta do executivo, um judiciário que se obriga a fazer o trabalho do legislativo e um executivo e um executivo que só atual na área judicial. E dizem que nossas instituições estão se mostrando sólidas, totalmente capazes de passar pelas crises que assolam nossa democracia. Balela.

A história do nosso ridículo começa com o processo de redemocratização, no qual os brasileiros entregaram a chave do cofre para um bandido de nome José Sarney. Aliás, quem não leu ainda Honoráveis Bandidos (Doria, Palmerio – Editora Record) recomendo. A reeleição de Lula logo após o mensalão foi o aprofundamento desse ridículo. E quando pensávamos que o Petrolão seria o ápice, na verdade era só o começo.

O Brasil elegeu e reelegeu Dilma, sob todos os fortes indicativos negativos políticos, econômicos e sociais. Veio a queda de Dilma, e o povo que foi às ruas deu-se por satisfeito de ver seu desejo atendido, mesmo tendo Michel Temer herdado a cadeira dela. E todos sabiam quem era Michel Temer. Se não soubesse bastaria usar o ditado “diga-me com quem anda…” que chegaria a uma conclusão óbvia.

Dilma Rousseff não caiu por pressão do povo, mas pela conveniência da ORCRIM do PMDB. Quem não gostou disso foi Renan Calheiros, que era importante para Dilma, mas não é importante para Michel Temer. Renan é líder de uma outra facção dentro do PMDB oposta à de Temer. A grande mágoa que Renan tem de Temer é por causa do segundo mandato de Dilma, quando ele queria ter sido o candidato a vice.

Isso só ajuda a comprovar que nas minúcias é que encontramos as explicações para tudo, não importa o que as denúncias digam.

Independente da falta de tato, de noção de tempo, de atropelamentos e atrapalhamentos da JBS, da imagem que se possa ter de Rodrigo Janot, ou os brasileiros se atém ao que é importante, ou viverão e morrerão sustentando a mesma casta política dominante, cuja renovação vem se dando através dos mesmos tipos de políticos e sistemas.

Está mais do que claro que para os políticos, juízes de tribunais superiores e advogados, o povo é apenas minúcia, um mero detalhe que só seria capaz de fazer diferença nas urnas. Mas o povo é mal informado, desinformado, deseducado, e as urnas são eletrônicas. É com isso que eles contam.

Mas a realidade não precisa ser essa. Podemos nos manter gado ou enfrentar essa situação entendendo que as instituições que aí estão faliram, tratando as denúncias com a gravidade que elas têm e ignorando as minuciosas versões que são veiculadas para nos desviar o foco do que é principal.

Se você acredita que temos um PGR bandido, ou um ministro de tribunal superior bandido, ou um presidente bandido, ou ministros bandidos, fique certo de que na atual conjuntura não há que se pôr a mão no fogo por nenhum deles. Não há mais como defender pessoas e intenções.

Nessa história, nem todos são bandidos, mas, certamente, todos são ridiculamente culpados. Inclusive nós.

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.