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Intervenção no Rio, o grande golpe de Michel Temer na democracia

Intervenção no Rio, o grande golpe de Michel Temer na democracia“Então, estavam lá o presidente da república e seus ministros próximos, todos preocupados e ocupados com as inúmeras revelações sobre seus atos de corrupção, uma votação de fim do foro privilegiado correndo no STF, interrompida por pedido de vistas de Dias Toffoli (que poucos dias antes havia estado com Temer num domingo, fora da agenda presidencial), outra já aprovada no Senado e parada há 1 ano na Câmara dos Deputados, quando surge uma ideia brilhante: porque não fazemos uma intervenção no Rio de Janeiro que vai impedir que o Congresso Nacional aprove mudanças na constituição?”

Bem, se não foi desse jeitinho que está escrito aí acima, não foi muito diferente disso. Alguém teve essa ideia brilhante, uma ideia com o perfil de quem conhece cada pedacinho da lei e da Constituição Brasileira. Uma trama que obedece a todos os rigores da lei, bastando que o pouco idôneo governador peça formalmente ao presidente um apelo dramático de “por favor, faça uma intervenção no Rio”. E assim aconteceu. Num momento de “profunda cidadania e responsabilidade”, curiosamente oportuno em vários sentidos, Pezão formalizou o pedido de arrego que Temer precisava.

Quem estava olhando para a eleição, viu o que pareceu ser, e não deixou de ser, ou tentar ser. Mas o papo da intervenção no Rio de Janeiro teve a ver mesmo com proteção. Enquanto Toffoli cozinhava a ação no STF com o pedido de vistas, Rodrigo Maia não tinha tirado o assunto nem do freezer ainda. E isso deu tempo para armar todo tipo de costuras e ideias de jerico para enfiar na goela do povo que, de fato, engole qualquer coisa mesmo.

Quando Temer assumiu o governo, um dólar equivalia a R$ 3,47. Hoje, esse mesmo dólar vale R$ 3,54. A economia americana realmente cresceu. E o que melhorou na nossa não foi suficiente para consertar o estrago feito pelos governos petistas, mas dos quais Temer era apoiador, entusiasta, cúmplice e vice em dois mandatos.

Enquanto o IBGE divulga uma inflação de 0,22% em abril as pessoas e empresas falam dos piores últimos 12 meses de suas histórias profissionais, com ênfase numa piora nos últimos 5 meses. Desde julho de 2017 gasolina e diesel acumulam alta de 40% nas refinarias. Num país sem ferrovias, no qual até caminhão é transportado por caminhão, queremos acreditar que apesar disso a inflação está sob controle por força do preço dos alimentos é uma brincadeira. Passei décadas da minha vida ouvindo Cid Moreira falar que a gasolina e o diesel eram os maiores vilões da inflação.

A intervenção no Rio teve a intenção de atender uma demanda legítima, mas de maneira ilegítima. Além de eleitoreira, ajudou a tirar o foco da população de assuntos como o aumento dos combustíveis, denúncias e investigações contra o presidente de república, investigações e prisões de amigos do presidente, de projetos vagabundos – de vagabundos – que só servem para inviabilizar o combate à corrupção e à impunidade. E, sobretudo, impediu que o Congresso Nacional de votar qualquer coisa que altere a Constituição Federal.

Com todas as costuras e esforços, o STF, finalmente, votou o fim do foro privilegiado, com algumas restrições, mas votou. Imediatamente a Câmara dos Deputados descobriu que tinha lá uma comissão semiformada que deveria ter começado a funcionar 1 ano e tanto atrás, e tiram do freezer o projeto que veio do senado e sem descongelar nem nada já “tacam” o bicho na panela, exatamente para dar um bocado de água. Porém, contudo, todavia, com a intervenção no Rio em vigor, vão ter que cozinhar muito esse projeto, porque trata-se de uma Proposta de Emenda à Constituição, e com intervenção não há alteração na dita cuja.

O projeto que veio do Senado foi às pressas para a panela por dois motivos básicos:

a) os ministros do STF começaram a despejar processos contra parlamentares na primeira instância; desde a decisão da corte mais de 50 processos saíram das mãos dos ministros e caíram nas mãos dos “juizecos”, como diria Renan Calheiros;

b) o projeto que veio aprovado do Senado acaba com o foro privilegiado em todos os níveis, mas IMPEDE que POLÌTICOS sejam PRESOS APÓS CONDENAÇÃO EM SEGUNDA INSTÂNCIA.

Da maneira como estão indo as coisas, se eles não fizerem nada, em breve estarão à mão dos “juizecos”, que – os sérios – costumam ser rápidos para investigar, julgar e sentenciar gente que estava acostumada a ter processos incinerados por prescrição nos tribunais superiores. Só que eles não podem votar a PEC porque a intervenção no Rio não deixa.

Acontece que nosso presidente da república, e “grande constitucionalista”, tem em suas mãos o poder de suspender a intervenção no Rio de Janeiro para que a tal PEC seja votada, mesmo com parecer contrário aos militares. Se quiser suspende. Pode fazer isso. E está pouco se lixando para a eleição ou para o que o povo, a mídia ou qualquer um pense a respeito, uma vez que seu 1% de coeficiente eleitoral não lhe permite sonhar nem com uma vaga de vereador na cidade natal da Marcela.

A única coisa que interessa a Michel Temer e toda a corja corrupta que o rodeia e odeia é ficar longe da cadeia. E para isso não faltarão aliados no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal.

A intervenção no Rio de Janeiro só interveio no processo democrático, na maneira de se praticar a democracia, sem, até agora, ter tido resultados práticos que devam ser comemorados porque as Forças Armadas não podem fazer papel de polícia, não podem atura como polícia, são apenas espantalhos fincados na plantação de milho para assustar os pássaros. Mas o que assusta mesmo é o desprezo com que os três poderes tratam as leis, o povo e a democracia, em especial o presidente da república, um constitucionalista.

É, General, vocês têm muito saco!

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.