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Governo Temer é a conta que estamos pagando por 33 anos de letargia

Esse governo é a conta que estamos pagando por 33 anos de letargiaNão, Michel Temer não apareceu no governo ontem, por acaso. Nem foi eleito vice-presidente de Dilma Rousseff duas vezes por descuido. Muito menos essa foi eleita presidente duas vezes sem querer, assim como Lula também por duas vezes, ou Fernando Henrique Cardoso, também duas vezes antes dele.

Por acaso foi para no governo Itamar Franco, aquele sim um vice-presidente oficialmente escalado para ser decorativo. Collor, eleito então presidente, representava o primeiro não do povo brasileiro a Lula. E contribui ainda para ser eleito o verdadeiramente por acaso presidente José Sarney, que pediu aos céus a chance de ser um bom corrupto e foi contemplado com um governo inteiro para chamar de seu.

Não é difícil entender em dois parágrafos o tamanho do buraco no qual nos enfiamos nos últimos 33 anos, e não dá para dizer que tudo foi por acaso. Não dá para dizer que os votos em Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma, duas vezes para cada um dos últimos 3, foram acasos. Houve revolta, esperança, conservadorismo, aposta, mas letargia acima de tudo.

Não nos importamos com tudo o que havia sido dito sobre o escandaloso governo Sarney, não nos assustamos com tamanha corrupção em 2 anos de governo Collor, ignoramos os alertas sobre o governo Fernando Henrique, demos de ombro para o mensalão do governo Lula. Só reagimos de verdade contra o segundo governo para Dilma Rousseff, no primeiro fizemos vista grossa.

Michel Temer é a conta que estamos pagando por tudo isso, e os juros não poderiam ser baixos. Sua ilegitimidade nasce do estreito vínculo de sua legítima ligação com todos os que o antecederam. A prática explícita do fisiologismo político, se aliando a qualquer um que estivesse no poder fizeram de Temer a síntese da desgraça política desse país. Se não é ilegítimo constitucionalmente é totalmente ilegítimo na representatividade do povo. A única união que ele conseguiu promover foi de repúdio a si mesmo.

Não há como Michel Temer continuar presidente, mas continuará assim mesmo. Somos reféns da Constituição Federal de 1988, de cuja confecção participou a maioria desses políticos que estão aí. Hoje, entendo que o termo usado por Ulysses Guimarães, dando o nome Constituição Cidadã, é porque foi uma constituição feita apenas para os cidadãos e não para os políticos. Para eles, foram introduzidos inúmeros parágrafos e incisos de autoproteção, relegando os rigores da lei a quem não tem dinheiro para pagar advogados.

O mais agravante nisso tudo é que estamos velozes 4 meses da eleição e ainda não temos certeza de que exista alguém que consiga encampar em seu discurso algo que não seja demagogia, utopia ou discurso para boi dormir. Outubro vai acontecer numa piscadela e só nos vemos diante de políticos que falam o que o povo gostaria de ouvir, sem que apresentem uma proposta que nos permita pensar num Brasil para, pelo menos, os próximos 20 anos. Todos falam em 2019, e quando falam em futuro as citações são utópicas e imprecisas.

Até quando vamos continuar fazendo contas desse tipo para pagar? Até quando fazer apostas em candidatos que não conseguem se apresentar como algo mais que uma duplicata de vencimento futuro? Vamos deixar continuar nos endividando? Endividando nossos descendentes?

Se alguém quiser se dar ao trabalho de ler um pouquinho da história, sugiro o capítulo Primeiro-ministro no artigo da Wikipédia que pode ser lido clicando aqui. É possível perceber algumas semelhanças nos movimentos que antecederam a deposição de João Goulart com o que vivemos atualmente. E certamente não por acaso. Após a renúncia de Jânio Quadros o país também estava perdido, sem norte, e foi assim que os oportunistas tentaram transformar o Brasil num país comunista.

Naquela época, porém, lutava-se contra comunistas, hoje luta-se contra ladrões, bandidos, golpistas, gente que sequer tem uma ideologia ou um sistema de governo para defender. São só ladrões. E a grande maioria dos que pretendem ser presidentes faz parte dessa turma.

O governo Michel Temer é ingovernável, ou, como diz o colunista Josias de Souza, Michel Temer é governado pelos fatos.

Se Michel Temer tem realmente compromisso com o povo e com o futuro do Brasil deveria renunciar ao cargo que, indignamente, ocupa e abrir espaço para um governo temporário que garantisse eleições sem urnas eletrônicas e a normalidade do país até a posse de um novo presidente em 1° de janeiro de 2019. Mas aí a utopia já é minha. Temer não vai renunciar. Só sai de lá no fim do mandato ou, na utopia de muitos, acompanhado de meia dúzia de oficias militares em direção à cadeia.

O resumo disso tudo é que não dá para dizer que essa conta não é nossa. Mas dá para dizer que não queremos mais pagá-la e, acima de tudo, dá para definitivamente sairmos da letargia e parar de endossar duplicatas que vencerão mais cedo ou mais tarde na forma de corrupção, enriquecimento ilícito, fraude em licitações, fraude em eleições, políticos e empresários ricos e impunes.

Somos uma república que sofre fortes abalos diante de uma greve de caminhoneiros. E disposta a assinar quantos cheques pré-datados forem precisos para não cair. Cabe a nós, somente a nós, nos recusarmos pagar mais essa conta. E o momento para que ela não vire débito automático é esse. Se virar, já era.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.