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Pra não dizer que não falei de Joaquim Barbosa

Pra não dizer que não falei de Joaquim BarbosaPenso que se a maioria de nós fechar os olhos e buscar uma lembrança de Joaquim Barbosa, a imagem que vem à cabeça é dele no Supremo Tribunal Federal, provavelmente em pé, de cara amarrada. O algoz de José Dirceu e do mensalão. Um ministro de posturas severas, sem papas na língua, que encarou de frente e com todas as letras gente como Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, esse último um paralelepípedo em seu sapato.

No dia 27 de fevereiro de 2014, Joaquim Barbosa, em uma espécie de desabafo, disse: Aviso o Brasil que este é só o começo, apenas o primeiro passo, dessa maioria de circunstância formada sob medida para lançar por terra todo um trabalho primoroso, levado a cabo por esta corte no segundo semestre de 2012″. No dia 29 de maio, portanto 3 meses depois, ele anunciou sua saída na sessão do plenário. Em 1° de julho seguinte ele saiu do Supremo.

Antes de escrever esse texto assisti cinco vídeos no Youtube com momentos de Joaquim Barbosa. O primeiro deles a sessão plenária na qual ele proferiu essa fala emblemática sobre si mesmo. O segundo um “melhores embates” de Joaquim Barbosa. O terceiro sua entrevista para Roberto D’Avila enquanto ministro do Supremo. O quarto, o vídeo no qual ele informa aos colegas que vai se retirar do STF e que tem também um belo discurso “falseane” de Marco Aurélio Mello. O quinto, e último, uma entrevista dele no Programa do Jô, dois anos e meio depois de ter saído do STF. Para ver qualquer deles é só clicar nos links.

Em suas atuações no plenário do STF, fica claro o quanto ele é inapto ao trato político. Joaquim Barbosa é uma velha rabugenta que rosna até para quem lhe dá bom dia. Um galo de briga sempre esperando um bom embate, e capaz de transformar rapidamente qualquer debate em um embate com desfechos imprevisíveis. Um juiz severo, aparentemente regido pelo rigor da lei, uma estrela que brilhou pelo tanto que conseguia ser desagradável até quando nos agradava com suas decisões. E penso que essa é a imagem que a maioria da população tem de Joaquim Barbosa, inclusive pelo que colhi pessoalmente com algumas pessoas.

As entrevistas, no entanto, revelam um Joaquim Barbosa, aliás, dois. No Programa do Jô, um ex-ministro que até titubeia no raciocínio quando começa, mas que logo assume um tom irônico e se afirmar como progressista, usando muito a França como referência. Com Roberto D’Avila um ainda ministro do STF, e como tal, com muito menos ironia e num debate muito mais focado nos acontecimentos da época e suas repercussões.

O destaque comum nas duas entrevistas é a ênfase que Joaquim Barbosa dá a afirmativa de que não pretende ser candidato à presidência da república. Ele é claro sobre sua inabilidade política e sua aversão à exposição. Ele fala claramente, com todas as letras, nas duas entrevistas, e em outras dezenas que podemos encontrar em qualquer pesquisa no Google, que não deseja ser candidato à presidência da república.

Eu não sei dizer se a picada de uma mosquinha azul tenha causado em Joaquim Barbosa algum tipo de delírio temporário, no qual se permitiu pensar seriamente sobre ser candidato. Eu, não acredito nisso. Penso que ele não tenha tido, em nenhum momento, a intenção de ser candidato. Mas não se deixou levar pelas conversas que surgiram e foram sendo arrumadas para que ele estivesse na mídia acalentando um sonho de um partido e não de um candidato.

Enquanto Luciano Huck correu da raia e preferiu ficar dentro do seu próprio caldeirão, Joaquim Barbosa nunca quis sequer entrar num caldeirão, muito menos um caldeirão político. Só quem ganhou com essa exposição toda de Joaquim Barbosa foi o PSB, que ficou em evidência na mídia associado ao nome do ex-ministros.

Se Joaquim Barbosa foi usado pelo PSB, se se deixou usar pelo PSB, ou se usou o PSB, não saberemos. Ficará na leitura que cada um fizer dos fatos.

Desde cedo trabalhando com marketing, publicidade e vendas, sempre ouvi em várias situações que “um bom vendedor não será necessariamente um bom gerente”. E esse raciocínio se aplica a Joaquim Barbosa, e pode se aplicar a outros como Sérgio Moro, quando muita gente imagina que ele poderia ser presidente da república. Um bom juiz não será necessariamente um bom presidente, até porque, num Brasil esculhambado como esse, senso de justiça e presidência da república parecem coisas incompatíveis.

Acredito que o Brasil não perdeu nada com a desistência de Joaquim Barbosa, porque ele já tinha desistido de nós, lá atrás, quando preferiu sair do STF a continuar os embates em nome da justiça que ele apregoa. E para firmar isso ainda mais, na conversa que teve com a jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, o ex-ministro disse duas coisas importantes:

“A previsão de que eu já estava mergulhado na campanha vinha de gente que não falava comigo. Minha disposição para disputar era pequena. Não tenho, nunca tive essa ambição por poder. ”

Os políticos criaram um sistema político de maneira a beneficiar a eles mesmos. O sistema não tem válvula de escape. O cidadão brasileiro vai ser constantemente refém desse sistema. Você não tem como mudá-lo. ”

Essas duas frases de Joaquim Barbosa deixam claro que ele não só não acredita no futuro do Brasil, como em momento algum teve, de verdade mesmo, intenção de participar de qualquer processo político que pudesse enfiar em caixas de marimbondos para promover mudanças.

Infelizmente, nos fazem perder um enorme tempo com esses personagens, assim como outros que estão aí como pré-candidatos apenas para embaralhar o cenário, dividir pensamentos, grupos, sub-estratificar a sociedade para que nenhuma maioria se forme em torno de um nome ou de uma questão.

Chega de gente que só está caminhando e cantando e seguindo a canção. Não dá para esperar mais. Temos que fazer a hora.

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