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Davi ganhou. Golias Renan perdeu. Mas temos que falar da fraude.

Davi Alcolumbre venceu a velha república. Sua ascensão às presidências do Senado Federal e do Congresso Nacional não é uma derrota apenas de Renan Calheiros, mas de toda a velha guarda política e criminosa que mandou nesse país desde que Figueiredo passou o bastão para Sarney depois que Tancredo ficou pelo caminho.

Foram 48 votos, precisava de 41. Ninguém sabe como seria o placar se Renan Calheiros não tivesse entregue os pontos quando viu que o vexame estava a caminho. E muito provavelmente seria do mesmo tamanho já que 50 senadores votaram a favor do voto aberto no primeiro dia da eleição. E não adiantou o Toffoli proibir. Cumpriram a regra da votação secreta, mas a maioria revelou em quem votou.

Temos muito que agradecer a Renan por ter insistido e persistido em ser o candidato do MDB. Facilitou para todos que estavam em dúvida. A candidatura Renan obrigou que os outros concorrentes se unissem contra ele. Até Simone Tebet, também do MDB, desistiu de sua candidatura avulsa e declarou voto em Alcolumbre.

Davi ganhou. Golias Renan perdeu.
Renan Calheiros perdido

Enfim, Davi ganhou, Renan perdeu e bateu em retirada, levando junto Jader Barbalho e Eduardo Braga, esse, aliás, absolutamente descontrolado desde o início da sessão da definição da votação da presidência do Senado, provavelmente antevendo o tamanho da derrota que se aproximava.

Quase tudo isso aconteceu, digamos, dentro das regras do jogo. E o que temos que analisar é exatamente o que aconteceu fora dela.

No momento em que o Senado definiu em votação dos senadores que a regra de votação para a presidência seria aberta e não fechada, não era a primeira vez que essa regra vinha sendo alterada.

A manutenção da votação fechada no regimento, e o casuísmo com que eventualmente se altera a regra, faz com que a votação aberta sirva como uma maneira de constranger os adversários que tem predileção pelo que acontece secretamente, quando na verdade ela deve ser uma regra que promova publicidade e transparência. E Renan não admite ser constrangido por ninguém, muito menos em público, ao vivo e a cores para todo Brasil.

Os regimentos internos do Senado, da Câmara dos Deputados, do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça não podem, de maneira alguma, prevalecer diante da Constituição Federal. Nem as constituições e leis estaduais e municipais prevalecem sobre a Constituição Federal.

Vendo que não tinha maioria para ser eleito, o voto aberto era a certeza da derrota. Renan é sua trupe convenceram Davi Alcolumbre a aceitar suspender a sessão para o dia seguinte, e enquanto todos nós dormíamos o digníssimo ministro Dias Toffoli trabalhava as 3:30 da manhã emitindo uma liminar para garantir que a votação fosse fechada e ainda ameaçasse de punição quem ousasse revelar o voto, ao gosto de Renan Calheiros.

Os senadores acordaram sábado sabendo que o presidente do STF passou a madrugada resolvendo o problema de um senador que responde a 14 inquéritos por corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, chefe de quadrilha, venda de medidas provisórias, causando interferência de um poder no outro. Mas os senadores obedeceram. Em parte.

Já que seria voto secreto decidiram que os votos seriam em cédulas. Apresentaram-se os candidatos, cada um fez se discurso, e foram para a votação. Quem era a favor do voto aberto ou mostrou a cédula para as TVs antes de colocar na urna ou foi a microfone e declarou em quem estava votando. Mas a festa ainda estava para começar.

Na contagem dos votos, apareceram 82 cédulas, quando o Senado Federal tem apenas 81 senadores, fazendo com que a votação fosse anulada e obrigando a realização de uma nova votação. E isso não foi acaso ou falha. Foi fraude. E a lógica dessa fraude é muito simples de entender.

Escrutinador descobre que tem 82 votos para 81 senadores

Algum escrutinador iluminado teve a brilhante ideia de contar os votos antes de abrir os envelopes e tirar as cédulas de dentro de cada um é isso revelou a fraude imediatamente, pois o normal é que peguem os envelopes e já separem os votos. Se tivesse sido feito assim só se saberia dos 82 votos ao final da apuração e com isso poder-se-ia (Temer deve estar orgulhoso de mim) melar a votação já sabendo qual teria sido resultado.

Se Alcolumbre aparecesse como vencedor nessa eleição, Renan melaria o pleito por causa dos 82 votos e tentaria trabalhar a diferença se fosse viável ou endossar a eleição de alguém que pudesse fazer frente a Davi. Caso ele fosse o eleito, mesmo que os 82 votos melassem a eleição ele já iria para uma segunda disputa sabendo que sairia vitorioso.

Mas aquele escrutinador babaca contou os envelopes antes de separá-los dos votos, e ficou claro para todos que ali estava sendo praticada uma fraude. E isso não pode ficar assim.

Que fraudes mais esses senadores estão acostumados a cometer? Praticar uma fraude dessas diante das câmeras das TVs e dos fotógrafos, com no mínimo centenas de milhares de pessoas assistindo, revela um descaso com a probidade e com a sociedade que nos obriga a questionar o que é que já não foi fraudado nesse senado? A olhos vistos só tinhamos assistido o fatiamento do impeachment de Dilma Rousseff, capitaneado exatamente por Renan Calheiros. E o que não vimos? E o que não vemos?

É indiscutível que o senador responsável por colocar uma cédula a mais na urna tem que ser identificado e cassado. Não há outra punição possível que não seja a cassação por tentativa de fraude na primeira eleição de uma legislatura. Fraude. Caso de polícia. Ficou com cara de apuração de desfile de escola de samba. Rebaixou o Senado Federal a um nível jamais imaginado, e olha que a sessão da sexta-feira já tinha batido recordes.

Renan Calheiros não retirou sua candidatura por descobrir que Davi na verdade era Golias. Renan pediu para sair porque o vexame seria maior. Se algum senador ainda estava em dúvida sobre em quem votar, a fraude da primeira eleição, legitimamente anulada em função dos 82 votos, tratou de definir a questão. Já era vergonhoso votar em Renan Calheiros até no escurinho. E ele correu para não ver de perto sua primeira grande derrota no Senado Federal.

Renan Calheiros tentanto ganhar no grito

É inconcebível imaginar que essa fraude não será devidamente apurada, assim como também a fraude de uma liminar expedida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal as 3:30 da madrugada de um sábado. Se essa liminar não foi redigida horas antes pelo ministro, o mais provável é que ela tenha sido redigida fora da esfera da justiça e algum “Bessias” só levou lá para assinar.

Existem senadores e episódios estranhos demais que precisam ser apurados. Até hoje nada se fala sobre as maletas de espionagem do Senado. Um absurdo engavetado no Supremo com dezenas de pessoas fazendo de tudo para que seja esquecido e prescrito.

A presidência de Davi Alcolumbre não encontrará vida fácil. Ainda existe no Senado um grupo disposto a tumultuar e impedir que a casa comece a agir de acordo com o interesse da população e contra os interesses dessa velha política chantagista e fisiológica representada por Renan Calheiros et caterva. O próprio Davi responde a 2 inquéritos no STF, e isso será fartamente usado contra ele.

Para termos certeza de que esses políticos estão realmente de saída será preciso que eles não tenham comandos de comissões, especialmente as que podem atravancar o andamento dos projetos para a segurança, economia e combate à corrupção e à impunidade. Renan Calheiros e seu grupo farão de tudo para presidir a Comissão de Constituição e Justiça. Para o país, eles lá é quase tão ruim quanto Renan na cadeira da presidência.

Golias ia tomar mais uma pedrada de Davi. Mas, mesmo muito maior, dessa vez fugiu. Ou entendeu o que quer dizer o ditado “quanto mais alto, maior a queda”, ou vai judicializar a questão mais uma vez e ganhar tempo enquanto inventa um novo plano para conquistar o mundo. O certo é que ele não quer receber a visita da Polícia Federal e sabe que sem o foro privilegiado de presidente do Congresso ou a ajuda dos homens de preto isso vai acontecer muito em breve.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.