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Corrupção é nosso maior problema? Ou é a autoflagelação cívica?

Corrupção é nosso maior problema? Ou é autoflagelação cívica?Corrupção todo mundo sabe o que significa, e nos últimos cinco anos sabemos também, e com exatidão de detalhes suficientes para não haver dúvida que ela percorre os corredores dos três poderes com a mesma desenvoltura de uma madrinha desfilando diante de sua bateria na Marquês de Sapucaí. Políticos com cargo ou sem cargo são verdadeiros mestres-salas em suas performances, enquanto juízes se comportam literalmente como porta-bandeiras, levando os estandartes de seus bandidos de estimação.  E nós?

Quem acreditou que o carnaval já tinha acabado esse ano, ouso dizer que ele mal começou. Nós, os trouxas, estamos de olho na tela da TV no meio desse povo que mal sabe para onde vai ou para onde correr. Nós pagamos ingresso para ver o samba atravessando diante dos nossos olhos e ouvidos, com políticos e juízes desfilando altivos em seus carros alegóricos, esbanjando luxo e luxúria na maior exibição de promiscuidade explícita jamais antes vista nesse país, e talvez no mundo civilizado e democrático.

Caso alguém tenha dúvida sobre o que é a autoflagelação, vou economizar o Google dando de graça a definição que mais vai se encontrar por lá: “autoflagelação é o ato de causar flagelo (dor) a si mesmo, de se castigar fisicamente”. No mesmo Google, encontrar-se-á (sempre tenho sensação do orgulho de Temer por mim nessas horas) como Conceito de “cívica” um adjetivo utilizado para referir-se a várias questões relacionadas com o civismo ou convivência social dentro de uma comunidade. Estamos nos boicotando, essa é que é a verdade.

Lidamos com a corrupção com a mesma valentia que milhões de pessoas discutem o BBB nas redes sociais. E não é incomum que o assunto BBB obtenha maiores índices de publicações e interações em redes como Twitter e Facebook, frequentando, inclusive, os Top 10 de assuntos mais comentados, mesmo em dias de revelações de escândalos graves. E o BBB dura cerca de três meses, enquanto a corrupção come solta o ano inteiro.

Nosso silêncio no mundo real é nossa autoflagelação cívica. Nos resumimos a cidadãos que se acostumaram que “as coisas são assim”. Muitas vezes observa-se em redes sociais réplicas de comentários que dizem “e do que adianta fazermos isso ou aquilo?”, ou questionamentos como “e você, faz alguma coisa além de ficar publicando em redes sociais?”. Talvez o fato de expor opiniões na tentativa de gerar pensamento crítico, debate, e até movimento, seja realmente pouco, e nesse momento eu nem saberia dizer o que mais fazer além disso, já que não há movimentos além da internet nos quais me engajar para fazer mais. Os poucos que surgiram foram sequestrados pelo sistema.

A corrupção age também na nossa vontade, na nossa coragem, corrompe a nossa esperança, e talvez por isso tantos de nós busquem mitos e salvadores da pátria que possam fazer por nós o que nós mesmos não estamos dispostos a fazer. Nenhum empresário fecharia a sua empresa uma semana em nome de uma ação cívica. Nenhum grupo de funcionários deixaria de ir trabalhar em nome de uma ação cívica. Nenhuma frente rebelde ganhou tamanho ou proporção em nome de uma ação cívica. E nesse cenário, nosso civismo é corrupto, porque se vende aos fatos.

Na semana que termina hoje ficamos sabendo que foram afastados do juiz Vallisney da 10ª Vara de Brasília processos que envolvem Lula, Geddel Vieira Lima, Eduardo Cunha e Lúcio Funaro estão sendo transferidos para as 12ª Vara de Brasília, teoricamente uma corte especializada como a Vara que Sérgio Moro comanda em Curitiba. E só para reler os autos dos processos levará 40 dias. E terá poder para desfazer o que já foi feito pelo juiz Vallisney, que até a metade do ano certamente proferiria sentença final sobre os acusados envolvidos, especialmente Lula. Coincidência?

Agora, para concluir a sexta-feira de mais uma semana de pura imoralidade política e judiciária, o presidente do TRF4, Desembargador Flores Thompson, informa que um juiz substituto poderá assumir uma vaga na 8ª Turma, cobrindo as férias do desembargador Victor Laus, e acontecendo isso poderá participar do julgamento dos embargos de declaração apresentados pela defesa de Lula. E com poderes para fazer o que quiser, inclusive rever o veredito dado pelo titular. Coincidência?

Enquanto isso tudo acontece, a intervenção federal no Rio de Janeiro toma de assalto os holofotes e as atenções, trava constitucionalmente o Congresso Federal para votar qualquer alteração na Constituição Federal e deixa temas relevantes como a PEC do Fim do Foro Privilegiado numa gaveta qualquer, provavelmente até 31 de dezembro, quando os pobres espantalhos fardados, espetados no milharal do tráfico de drogas, encerrarão a estática parada militar. Coincidência?

E nós?

Nós não iremos às ruas, porque não é nossa vocação. Os militares não irão as ruas por nós porque já estão nas ruas do estado fluminense provando que não há plano de intervenção. Se tivessem um plano preparado, não perderiam a oportunidade de demonstrar sua força assumindo o controle e as ações da missão de erradicar o crime e os criminosos do Rio, o que incluiria, certamente, um faxina nos poderes executivo, legislativo e, quiçá, judiciário local. Não, eles não têm. E pelas regras a que aceitaram a missão, fica claro que não havia preparo nem para essa intervenção.

O Brasil é o samba do crioulo doido (que os mimizentos me perdoem, mas a expressão é antiga e de fácil compreensão), e a corrupção é o enredo.

O salvador da pátria não virá porque ele não existe. E se vier, será algo meio independência ou morte (conheço isso de algum lugar), porque ou ele mata a raiz da corrupção, ou será mais um presidente morto por ela.

Aí, então, lembro-me de que autoflagelação cívica é provocar castigo em si mesmo através da leniência, da covardia, da impassividade, e, mesmo fazendo ativismo digital, não deixo de me ver partícipe de cada um desses substantivos, pois o que eu faço pode até gerar pensamento crítico, opinião, mas não gera nenhum tipo de movimento capaz de tirar ninguém da inércia a que todos nós civicamente e espontaneamente nos submetemos. E a corrupção ganha mais um round.

Talvez nosso maior problema não seja nem a corrupção, nem a autoflagelação cívica, mas sim que o brasileiro goste tanto de carnaval que não esteja disposto a tirar a fantasia e encarar de frente que, de verdade mesmo, vivemos uma interminável quarta-feira de cinzas.

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