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Carta aberta ao General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

Carta aberta ao General Eduardo Dias da Costa Villas BôasPrezado General Villas Boas.

De fato, e na essência, não sou um intervencionista. Mesmo usando minha infância e adolescência para relativizar minhas sensações sobre o que é viver num país decente, quando vivi nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, não consigo me enquadrar na turma das pessoas que entendem que uma intervenção militar é a solução salvadora para o Brasil.

Penso que essa solução salvadora existe, mas, mesmo se implantada imediatamente, levará 100 anos para surtir o efeito desejado, e ela se chama educação. Não imagino que fuzis e baionetas, tanques e canhões, possam substituir essa solução de longo prazo em qualquer sociedade. Educação.

Por outro lado, General Villas Boas, estamos vivendo um momento de inadmissibilidades. Enquanto os três poderes apenas dilapidavam os cofres públicos, a penúria da sociedade se dava no aprofundamento do empobrecimento, da educação, da saúde e da segurança. Mas certos limites foram ultrapassados em tal grau que não é mais possível imaginar que o Brasil possa se tornar um país decente apenas confiando na força das suas instituições, porque elas estão sendo dizimadas, ridicularizadas, afrontadas, ignoradas, manipuladas e descredenciadas por quem as desafia e por quem faz parte delas.

Políticos que são responsáveis pelo estado de penúria do nosso povo, das nossas instituições, porque roubaram, cometeram ilegalidades, burlaram as leis, são os mesmos que se valem delas para continuar impunes, General Villas Boas. E, óbvio, isso não é novidade na caserna. Vocês estão cansados de saber o que fazem, quem faz, onde faz, como faz.

O presidente da república teve “congeladas” duas denúncias de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, ao custo de bilhões de reais que deixaram de chegar aos contribuintes na forma de serviços. O primeiro presidente da república denunciado e investigado no exercício do cargo, tendo como assessores diretos e próximos outros políticos denunciados e investigados pela mesma prática de corrupção e lavagem de dinheiro.

Ministros do Supremo Tribunal Federal fazem chacota com a cara do povo e das instituições. Andam com os investigados e réus a quem julgam, são flagrados conversando com investigados em ligações monitoradas pela Polícia Federal, favorecem bandidos, recebem em seus gabinetes pessoas juridicamente alheias aos casos sob seus cuidados para tratar exatamente desses casos.

Ministros do Superior Tribunal de Justiça (aliás, 33, General Villas Boas, para que tanto?) têm escritórios de advocacia pertencente a seus filhos atuando em casos julgados por seus pais. Mais, há propina denunciada, delatada, comprovada.
Um terço do nosso Senado está envolvido em corrupção, algumas histórias que remontam aos tempos do regime militar. Todos livres, impunes.

Metade da Câmara dos Deputados responde a processos que vão de prestação de contas de campanha à corrupção e lavagem de dinheiro. O ex-presidente da casa preso e condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

São 12 os governadores que tem processos de corrupção e lavagem de dinheiro guardados nas gavetas do Superior Tribunal de Justiça, responsável por julgá-los. E além deles.

Centenas de deputados estaduais, prefeitos e vereadores são investigados ou respondem a inquéritos.

O Rio de Janeiro, General Villas Boas, sobre o qual, penso, o senhor deve estar informadíssimo, já é terra de ninguém, e ninguém sabe dizer se alguém conseguirá resolver isso de verdade, muito menos em que prazo isso poderá acontecer. E arrisco dizer que, nessa levada atual, está mais fácil que o resto do país seja definitivamente contaminado pelo banditismo do que acabar com o mesmo no estado fluminense.

Não sei quantas vezes o senhor se pergunta isso, nem mesmo se faz a si mesmo essa pergunta, mas eu me faço sempre: como podemos viver num país assim?

Não há estado de direito no Brasil, General Villas Boas. Há um estado de exceção, e essa exceção está sendo comandada pelos bandidos, e não por um regime ditador ou autoritário. Bandidos que tanto podem ser encontrados nas ruelas e becos das favelas, quanto nos corredores e gabinetes do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e dos tribunais superiores.

Não, General Villas Boas, eu não sou um intervencionista. Mas sou um brasileiro que não acredita mais na capacidade das instituições para reorganizar o país de forma democrática, porque não há democracia no banditismo. Vivemos a ditadura da bandidagem, com tentáculos da 1ª à última instância do judiciário, da menor à maior câmara dos vereadores dos 5570 municípios, da menor à maior assembleia legislativa dos 27 estados, e de mais da metade dos 594 integrantes do Congresso Nacional.

A sociedade não tem mais em quem confiar. Pior que isso, não tem mais porque confiar. Nem na polícia, nem nos bombeiros, e nem nas Forças Armadas. Somos uma sociedade órfã das duas coisas que deveriam ser as mais relevantes na nossa república: ordem e progresso. Está escrito lá, em verdade, na tarja branca em curva, dentro do círculo azul, do losango amarelo, do retângulo verde.

E é com essa lembrança, quase desenhada, General Villas Boas, que pergunto ao senhor em qual das duas mídias abaixo o povo brasileiro deve levar a sério. A primeira, tenho certeza, o senhor seria capaz de cantar até sem voz. A segunda, o General já deve ter sido informado sobre, João Pedro Stédile, um notório bandido, atacando o judiciário brasileiro, é de fazer qualquer brasileiro perder a voz, tamanha é a afronta às pessoas de bem e às instituições, aquelas nas quais vocês, militares, dizem confiar para a solução da crise nacional.

A primeira é vídeo é a música Fibra de Herói. A segunda a foto de um anti-herói. E, até o momento, General Villas Boas, é ele que está levando a melhor, ridicularizando a tudo e a todos, inclusive (e quem sabe principalmente) vocês, que, pelo menos na música, defendem os verdadeiros valores capazes de fazer uma nação poder sonhar novamente com ordem e progresso, nessa ordem.

Não, General Villas Boas, eu não sou um intervencionista. Intervencionistas seriam vocês, de mãos dadas com uma sociedade civil que clama por justiça. Eu sou só um cidadão que talvez fale e pense demais, mesmo que isso sirva apenas como desabafo.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.