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Justiça? Aguarde mais uns dias para renovar toda sua fé nela

Se a prisão de Lula nos dá a grata sensação de que a justiça foi feita, muitas injustiças ainda estão para ser cometidas, algumas que podem nos deixar com cara de bobos mais uma vez.

Lula foi preso porque encontrou um juiz inteligente, estrategista, muitíssimo bem preparado para a guerra que sabia que enfrentaria quando viu o tamanho da encrenca que caiu no seu colo. O escritório de um doleiro em cima de um lava jato implodiu o sistema de corrupção epidêmica, sistêmica, e deixando de ser técnico na definição, um sistema de corrupção desavergonhado que roubou o presente de milhões de brasileiros.

Injusto não citar também os excelentes trabalhos Da Polícia Federal e do Ministério Público Federal no desmantelamento não de uma apenas, mas de diversas quadrilhas e facções espalhadas por toda a administração pública. Penso que ninguém seria capaz de falar de um único ministério dos tempos de PT que não tenha sido citado ou envolvido em algum escândalo, como também não dá para citar um partido aliado dos petistas que tenha passado incólume pela Operação Lava Jato, e dos não aliados só sobraram aqueles que são insignificantes até para esquemas de corrupção.

Passo a passo, sem queimar largadas e etapas, a justiça, através da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, foi encurralando os políticos, prendendo alguns nomes significativos, e prendendo também empresários, doleiros, operadores de offshores, e figuras menores que atuavam nos esquemas. E foi dessa maneira que Lula foi encurralado, como as cenas patéticas que vimos dele, literalmente entocado.

Muitos dirão que ele não se escondeu lá, e não deixa de ser verdade porque seu destino era conhecido. Mas poucos, mesmo que neguem verbalmente, poderão negar para as suas consciências que o Lula que estava ali era um animal assustado, que procurou proteção nos braços dos poucos que ainda se dispõe a pagar micos, chipanzés e gorilas em seu nome, não porque acreditem nele, mas porque a liberdade dele equivale a liberdade de todos eles.

Luis Inácio Lula da Silva passou 4 anos amaldiçoando a Lava Jato, menosprezando, acusando e ameaçando a justiça, não se importando para isso se o palanque era um carro de som na Avenida Paulista ou o velório da própria esposa. A única coisa que importava era construir e repetir a narrativa de que havia um complô da justiça contra ele. Foram 4 anos, e não deu certo. Lula foi preso de forma humilhante, se entregando à Polícia Federal e conduzido no mesmo avião que já transportou ninguém menos que Fernandinho Beira Mar, traficante e, como Lula, líder de uma organização criminosa.

Pouco importa agora se a cela dele tem 15 metros quadrados, o que ele come no desjejum, quantos passos deu no banho de sol e que tipo de programas assistira na TV que Sérgio Moro deu de lambuja, talvez por medo de que Lula acabasse tentando suicídio de ter que se aturar sozinho. Há até controvérsia sobre o que será mais difícil para ele na cadeia, se depois de mais de 40 anos ficar sem um puxa saco por perto ou sem uma garrafa de cachaça. Difícil saber. Porém, sempre há um porém, o fato de Lula estar preso não nos permite a folga para confiar que a justiça está se impondo perante à corrupção.

Na guerra contra a corrupção e a impunidade, a prisão de Lula é a conquista de uma grande batalha, mas é só uma das batalhas importantes que ainda precisam ser enfrentadas.

A próxima e mais urgente acontece dentro do edifício público mais importante do sistema judiciário brasileiro e atende pelo nome de Supremo Tribunal Federal. O mesmo lugar no qual somente a justiça deveria ser feita é que as injustiças prosperam. Qualquer cidadão minimamente politizado e com noção de realidade sabe que dentre os 11 ministros do STF 5 deles, liderados por Gilmar Mendes (Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, Dias Tóffoli e Celso de Mello), atuam em favor da urgente reversão do entendimento que permite início da execução da pena após confirmação de condenação em segunda instância. E, apesar de não sabermos claramente o motivo porque fazem isso, sabemos o objetivo e a que pessoas interessa essa revisão.

Depois de Lula, o STF representa, hoje, o que há de mais dissonante com da sociedade brasileira. O povo brasileiro não pode permitir-se acomodar, como fez após o impeachment de Dilma, o que permitiu que esse tipo de resistência imposta pelo PT e pelas esquerdas mantivessem seus espaços intocados, afrontado as leis, a justiça, a imprensa, a sociedade e a realidade.

Temos que ficar vigilantes e atuantes diante do STF que na próxima quarta-feira pode até soltar Lula, todos os corruptos presos como Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Antônio Palocci (que estranhamente não deixam fazer uma delação premiada) e até Sérgio Cabral, já condenado a mais de 100 anos de cadeia. E além deles, abrir as portas da cadeia para todo traficante, assaltante, assassino, bandido, estuprador e pedófilo que se encontre no direito de receber o mesmo benefício. E em nome de Lula e seus comparsas, o STF parece não se importar com isso.

Além de soltar todos, a revisão da prisão após segunda instância, faz do fim do foro privilegiado uma armadilha para a sociedade. Ao perderem o foro privilegiado, todos os processos de políticos serão transferidos para juízes de primeira instância, fazendo com que a imensa maioria deles volte à estaca zero, com o direito a todo tipo de recursos inimagináveis que pode ser impetrados pelas defesas empurrando esses processos por mais de 20 anos até que cheguem ao STJ – Superior Tribunal de Justiça, que passará a ser o responsável por analisar o que vier a ser o último recurso da defesa de qualquer acusado.

Renan Calheiros, Michel Temer, Aécio Neves, Romero Jucá, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffman, Fernando Collor, Lindbergh Farias, Humberto Campos, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Eunício de Oliveira, José Serra, Aloysio Nunes Ferreira, Geraldo Alckmin, Beto Richa, Marconi Perillo, Luiz Fernando Pezão, Fernando Pimentel e mais duas centenas de políticos com foro privilegiado só esperam que o STF revogue a tal prisão em segunda instância e recoloque em votação a ação do fim do foro na qual Dias Tóffoli ficou sentado por alguns meses quando o placar já era de 8 a 1 pelo fim.

Em resumo, antes de apostar que a prisão de Lula é a senha para um novo país, é melhor esperar a sessão do STF da próxima quarta-feira, quando saberemos realmente se a justiça merece que confiemos nela, ou que passemos a desconfiar de vez das pessoas que deveriam zelas por ela e não pelas pessoas que cometem crimes e querem se livrar dela.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.