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A Copa seria o pano de fundo para o que acontece na cozinha. Seria.

A Copa seria o pano de fundo para o que acontece na cozinha. Seria.Ainda que um contingente incalculável de brasileiros esteja de olho na Copa e no cabelo do Neymar, uma minoria valente, “atordoada permanece atenta, na arquibancada para a qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa”, me aproveitando das palavras de Chico Buarque na música Cálice. Aliás, vale uma lida na letra. Está muito mais atual do que foi na época (aqui).

O trâmite da CPI da Lava Jato mostrou a falta de limites dos atuais ocupantes da Câmara dos Deputados. Seria enfiada goela abaixo, e ainda corre o risco de ser criada, enquanto Felipe Coutinho, Neymar e companhia fazem gols para que o Brasil fique mais leniente do que é regado a dias sem trabalho, cerveja, churrasquinho e uma risonha sensação de patriotismo representada pela camisa de uma seleção de futebol.

Quando José Sarney conseguiu embutir “a jabuticaba” dos 5 anos para o seu mandato, não houve apenas vaidade e poder nisso, mas estratégia. A partir daí as eleições gerais passaram a acontecer nos anos de Copa do Mundo, o que pode ser bom ou ruim, mas certamente um momento que pode ser muito útil e aproveitável. Infelizmente, o orgulho do brasileiro médio se conforma com pouco. E, nada casualmente, as eleições municipais, que já não são muito prestigiadas, acontecem em ano de Olimpíadas. Outra coincidência?

Uma verdadeira reforma eleitoral a ser feita nesse país tem que ter por base que não seja em ano de grande evento esportivo mundial, ou mais especificamente, em ano de Copa do Mundo e Olimpíadas. E o fundamental desmembramento das eleições, separando, por exemplo, entre majoritária e proporcional ou por estadual, federal e municipal.

O eleitor terá que escolher em outubro um presidente, um senador, um deputado federal, um governador e um deputado estadual. São cinco escolhas “feitas nas coxas”. Segundo artigo da revista Exame (aqui) de janeiro de 2018, 79% dos brasileiros não lembram em que votaram para o congresso na eleição anterior.

A atual composição do Congresso Nacional reúne tudo que há de pior na política brasileira, salvo uma meia dúzia de 4 ou 5 que se salvam nas casas, mas o grau de pilantragem e descaramento atingiu limites assustadores. A CPI da Lava Jato está sendo criada para que políticos investigados investiguem quem os investiga. Mas a Copa tinha que ter ajudado mais. O Brasil tinha que ter goleado a Suíça e a Costa Rica e os brasileiros estarem eufóricos o suficiente para não se incomodar com política, seria só mais uma CPI.

Mas deu certo no Supremo Tribunal Federal. Gleisi Hoffmann foi absolvida de corrupção e lavagem de dinheiro por 5 a 0. C I N C O. E absolvida do crime de caixa 2 por 3 a 2. Cármen Lúcia disse, no julgamento do mensalão, “caixa 2 é crime”, mas parece que alguns ministros não concordam com ela. Deram aval para Narizinho se fingir de honesta com atestado, como se outros dois processos contra ela, mas quentes e robustos, não estivesse a caminho.

Uma pergunta importante é a seguinte: se Gleisi foi absolvida de corrupção e lavagem de dinheiro porque as provas só se sustentavam em delações e o MPF não conseguiu comprovar a materialidade do crime, então não houve crime. Nesse caso, ou os delatores tem que ser processados pelo MPF por calúnia, injúria, difamação, danos morais, ou eles têm que ser igualmente absolvidos pelo mesmo não cometimento de crime.

No rastro disso veio o arquivamento do milionésimo milésimo quinto pedido de liberdade para Lula, o que parece ser boa notícia, mas que me deixou com uma pulga atrás da orelha. Mesmo com Copa e tudo, foi fácil demais. Sepúlveda Pertence andou visitando Fachin recentemente, Dias Tóffoli e Gilmar Mendes visitando Temer antes do julgamento, tempos estranhos, como diz Marco Aurélio Mello.

E por falar nele, o gagá do plenário andou falando bobagens para a TV portuguesa em bom português. Disse que a prisão de Lula é ilegal, mas esqueceu-se que ele faz parte do colegiado que chancelou tal “ilegalidade”. Para Marco Aurélio, placar de 6 a 5. Ele quer no mínimo uma maioria esmagadora, mesmo que seja por 6 a 5 a favor do que ele pensa. Se Lula está preso por uma ilegalidade, ele Marco Aurélio Mello está prevaricando.

Não há mais futebol que suprima ou sublime a verdade do país no qual estamos vivendo. A Copa realizada no Brasil deixou um legado de verdades e decepções, mesmo na gente mais simples, e mesmo que essa gente mais simples esteja ligada na televisão assistindo todos os jogos e vibrando com o Brasil, porque esse é ainda um dos poucos orgulhos que ela pode ter. E um orgulho pequeno perto do que representa a cidadania.

Nada contra a Copa do Mundo, um evento belíssimo, do qual eu mesmo gosto muito, mas que já não consigo ver sem pensar no que tem por trás dela, dos escândalos de corrupção que, mais uma vez, foram protagonizados por brasileiros. Um ex-presidente preso, outro que mal tem coragem de sair de casa, e o atual que não tem coragem de sair do país porque sabe que será preso. E essa corrupção começou lá atrás, com outro brasileiro, João Havelange.

Temos coisa mais importante para nos preocuparmos do que o motivo do choro do Neymar, ou com sua coleção de carros de 18 milhões de dólares, ou com os 200 milhões que ele ganha por ano, porque só ele ganha.

O povo precisa pôr na cabeça que cada jogador da seleção ganhará 2 milhões de reais se o Brasil ganhar a Copa. São 2135 salários mínimos. Um brasileiro ganhando salário mínimo precisaria trabalhar aproximados 177 anos para ganhar 2 milhões de reais.

A Copa acaba em 15 de julho. Com a taça, ou sem a taça, o Brasil continua inclusive pagando os pecados e as contas da desgraça que foi a Copa no Brasil. Chega de levar de 7 a 1. Não vamos deixar de olhar para nossa cozinha porque a CPI da Lava Jato ainda está rolando e certamente o Neymar não estava chorando por causa disso.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.