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518 anos do descobrimento do Brasil e milhões ainda querem espelhos

518 anos do descobrimento do Brasil e milhões ainda querem espelhosContinuamos índios. O que foi um dia um projeto de nação chamada Brasil transformou-se numa enorme disseminação de tribos que não brigam pela razão, mas pelo que conseguem enxergar nos espelhos que lhes são dados.

No que melhoramos afinal?

O Brasil de hoje vive uma guerra tribal. A população está cada vez mais subdividida em fantasiosas versões dos fatos que só mesmo quem gosta de ganhar espelhos consegue acreditar, porque só consegue olhar para si mesma.

Cabral desembarcou num território dominado pelos Tupinambás, que eram inimigos dos Tupiniquins. O apoio dos Tupinambás aos portugueses aumentou o ódio entre as tribos. Mesmo sem ter tido contato com os portugueses e pouco sabendo das intenções deles, o simples fato de terem o apoio dos Tupinambás era suficiente para que os Tupiniquins também os tratassem como inimigos. Não havia uma razão lógica, apenas entendiam que o amigo do meu inimigo é meu inimigo.

Não é difícil entender que há 518 anos atrás existissem guerras tribais, que tinham a antropofagia como diretriz instintiva. Tupinambás, Tupiniquins, Aimorés, e praticamente todas as tribos que habitavam o território do Brasil, viviam na Idade da Pedra, entre a passagem do Paleolítico para o Neolítico.

Diz o artigo da Wikipedia “O impacto causado pela chegada dos portugueses é o mesmo que causaria hoje a chegada de nave de extraterrestres pertencentes a uma civilização milhares de anos mais avançada do que a nossa“.

Hoje, 518 anos depois, mesmo com todo o desenvolvimento e conhecimento produzidos, continuamos incapazes de lutar contra um inimigo comum, ou lutar por um objetivo comum. O amigo do meu inimigo continua sendo meu inimigo, mesmo que eu não saiba minimamente quem ele é.

Já não somos mais direita, esquerda e centro. Somos centro esquerda, extrema esquerda, centro direita, extrema direita, todas elas se subdividem internamente em facções e correntes. Já não somos apenas homem e mulher, mas também homossexuais, transgêneros, travestis, panssexuais. E para ele eleger pode-se ser o que quiser, basta dizer que é. Já não somos mais brasileiros, mas nordestinos, sulistas, nortistas.

A multipolarização social deveria ser boa, mas nos impede de ser um único Brasil. O “nós contra eles” nos transformou em vários Brasis. E continua sendo incentivada, cada vez mais subdividida. De certo modo, somos hoje um Brasil com uma perspectiva mais incerta do que tinha o Brasil que Cabral descobriu.

Os exploradores de hoje continuam tirando a riqueza do Brasil. Todos os escândalos revelados no rastro da Operação Lava Jato mostram que essa riqueza é roubada do contribuinte, principalmente dos pobres que são a grande massa trabalhadora, que, de cara, “emprestam” compulsoriamente 8% do seu salário para o FGTS, além de imposto de renda, PIS, PASEP e pagam todos os impostos embutidos em todo tipo de transação financeira resultante de um negócio.

O que são o Bolsa Família, o Fies, o Pronatec, o Minha Casa, Minha Vida, senão espelhos? São programas dispensáveis? Não, não são. Mas tão frágeis como são os espelhos. Em qualquer choque mais agudo, quebram e estilhaçam. E a realidade dessas pessoas é tão dura, que elas preferem continuar ganhando espelhos, para poderem continuar olhando para si mesmas, ao invés da verdadeira realidade que as cerca.

Todos os movimentos em prol da impunidade não são em nada diferentes do que fez Pero Vaz de Caminha, quando na famosa carta que relata ao Rei o descobrimento do Brasil aproveita e “solicita que seu genro, Jorge de Osório, que foi preso por assalto a uma igreja e agressão a um padre fosse solto. O famoso escrivão usou de sua proximidade com o alto escalão português para solicitar um ‘favor”, fato conhecido como o primeiro caso de corrupção da história do Brasil. E consta que poucos meses depois ele foi libertado.

Saímos de Ilha de Vera Cruz, para Terra de Santa Cruz, viramos Brasil, mas continuamos índios. Nos dão espelhos, e continuamos só vendo um mundo doente, sem poder fazer muito por ele.

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Foro privilegiado. Para justificar o fim, o STF inventou mais meios.

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.