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2017, o ano que só vai acabar em 30 de outubro de 2018.

2017. O ano que só vai acabar em 30 de outubro de 2018.Todos os brasileiros comemorarão o fim de 2017 em 31 de dezembro, como em todos os anos. Muitas festas, muitos fogos, muitas esperanças, promessas, desejos, orações, celebrações e expectativas para um 2018 diferente. Mas, infelizmente, não é bem assim que funciona.

Da maneira como este ano está se encerrando, o maior ato de otimismo é torcer para que 2018 voe e cheguemos logo às eleições. De hoje até lá, nada deverá ser decente, honesto e promissor, nem mesmo uma provável condenação de Lula em segunda instância. Pelo contrário, o mais provável é que essa condenação acabe de vez com o pouco de paz que ainda temos em 2017.

Pessoalmente, não vejo o que comemorar em 2017, nem mesmo o arremedo de melhora da economia, cujo preço está sendo a manutenção de uma facção no poder e que não está se fazendo de rogada ao se movimentar para acabar com o movimento anticorrupção. Nenhuma mudança promovida por esse governo foi favorável ao combate à corrupção. E ele contou com importantes aliados em posições chave do poder para fazer o papel sujo.

No STF podemos concentrar os ataques em Gilmar Mendes, o paladino da injustiça. Mas todo o STF foi covarde com a Lava Jato, pois a apertada maioria que discorda de Gilmar Mendes e seus gilmarmendetes não teve coragem de peitar a manobra arquitetada nos encontros fora da agenda do Palácio do Planalto. E é bom que se diga a quem não sabe, presidente da república é obrigado a ter agenda, exatamente para que a garagem da residência oficial não possa ser usada para receber empresários, magistrados e políticos bandidos.

O Código de Conduta Ética dos Agentes Públicos em exercício na Presidência e Vice-Presidência da República diz em seu artigo 4°:

V – divulgar e manter arquivada, na forma que for estabelecida pela CEPR, a agenda de reuniões com pessoas físicas e jurídicas com as quais se relacione funcionalmente; e

VI – manter registro sumário das matérias tratadas nas reuniões referidas no inciso V, que ficarão disponíveis para exame pela CEPR.

Não é mimimi. É lei, e está no DECRETO Nº 4.081, DE 11 DE JANEIRO DE 2002.

A Operação Lava Jato está sendo sufocada pelo uso dos instrumentos à disposição de quem tem a caneta na mão, mas também pela imobilidade do povo brasileiro, que se deu por satisfeita com o impeachment de Dilma Rousseff como se fosse essa a única questão importante. O mesmo povo que foi às ruas em junho de 2013, e jurava que não era só pelos vinte centavos, mostrou que na verdade nem sabe porque foi às ruas.

Na minha opinião, ao contrário do desejo da maioria, a disputa eleitoral à presidência será pautada pela maior quantidade de lixo e baixaria jamais visto nesse país. Não espero propostas técnicas e intelectuais, mas ataques a honra, a moral. Nunca tantos telhados de vidro estarão tão expostos às pedras, porque trincados todos já estão. Quebrar ou não quebrar já nem faz mais diferença.

Imagino, ainda, que os poucos que tencionam apresentar uma candidatura decente terão que gastar seu tempo se defendendo de acusações, tática que mesmo sem eleição foi usada com sucesso durante todo o ano de 2017. O congresso nacional passou o ano entre se vender à Michel Temer para arquivar denúncias e a promover mudanças de leis que inviabilizem as denúncias. E enquanto isso todo mundo denunciando todo mundo.

O rol de candidatos que se apresentará aos eleitores em 2018 será só a continuidade de 2017. Para presidência da república o negócio é embolar e não polarizar. A esquerda vai com 4 ou 5 candidatos, o centro (ou os que se dizem centro) com mais meia dúzia, a direita (ou que se diz direita) até agora apresenta um único nome e, pasmem, até Fernando Collor tem dito que apresentará sua candidatura pelo nanico com raquitismo PTC.

Como esperar que 2017 termine em 31 de dezembro?

Até o dia 30 de outubro de 2018 teremos mais do mais do mesmo. Mais chicanas jurídicas, mais pré-campanhas enchendo a cabeça das pessoas de mentiras (não serão só fake news, as mentiras serão deslavadas) e de esperanças vãs, mais criminosos soltos, mas leniência dos tribunais superiores, mais esmagamento de tribunais inferiores, mais perfis bloqueados, mais censura.

Então, dia 31 de outubro, o destino do Brasil estará selado por mais quatro anos. E nesse momento, ainda não temos a menor ideia do que vai acontecer.

Não deixemos, no entanto, de comemorar a passagem cronológica do nosso tempo. Se política e republicanamente não sabemos o que acontecerá, o calendário continuará a correr, e os estragos causados na economia, na educação, na saúde, na segurança pública, na infraestrutura e na mente da população menos instruída e interessada no que realmente acontece no país, demorará ainda décadas para serem reparados, sabe-se lá quantas.

Estamos num país sem rumo, sem líderes, sem confiança uns nos outros, nas leis, na justiça, nos nossos representantes eleitos, nos nossos governantes em todos os níveis.

Se quisermos que 2017 realmente se encerre no dia 30 de outubro de 2018 teremos que buscar a consciência de cada um próximo a nós, sem cair no conto das rivalidades, que só servem para levar a disputa a um campo que só interessa aos nossos adversários que não querem que o tempo do Brasil avance. Caso contrário, talvez o ano de 2017 só venha a terminar em outubro de 2022. E por cinco anos e dez meses acordaremos num ano que não terminou. Sem direito a indultos.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.