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O ano de 2017 está acabando. A impunidade não.

O ano de 2017 está acabando. A impunidade não.

Estamos nos derradeiros dias de novembro, o que significa que temos pouco mais de 15 dias para que o Brasil entre em total estado de inércia festiva e que fique o dito pelo Benedito.

O STF para, o Congresso para, o Executivo para, o povo para. E nesse momento a maioria está se lixando para quem é corrupto ou não é. Só a impunidade não para.

Corruptos trabalham 365 dias por ano. Sempre é dia de fazer um acordo, combinar um trambique, elaborar um projeto de lei estapafúrdio, comprar um juiz num jantar, se vender para um empresário num almoço.

Tudo absolutamente institucional, é claro. E nada melhor do que as confraternizações de fim de ano para que essa institucionalidade pareça realmente normal.

Quem esperava ver dezenas de corruptos na cadeia em 2017 vai ter que se contentar com os que já estão presos. O Rio de Janeiro está, inclusive, sendo dado de presente para a população, numa espécie de “cala boca”, tipo, “olha, estamos prendendo corruptos”.

E o que esperar de 2018?

Sugiro uma boa dose de gengibre no 1° de janeiro, logo cedo, para ir preparando a garganta para a quantidade de sapos a engolir.

Se não surgir nenhuma ideia mais maluca, o projeto do fim do foro privilegiado na Câmara dos Deputados vai se transformar num Frankstein que ao invés de acabar com essa desgraça pretende estendê-la a ex-presidentes da república.

Significa deixar por conta apenas do STF 6 ex-presidentes, incluindo Temer quando sair do governo. Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma. Exceto Collor, o resto morreria antes de sentir o cheiro do corredor da galeria de um presídio. Seria o foro da impunidade.

Mas o mais desesperador para 2018 continuará sendo o povo brasileiro, completamente incapaz de reagir, de se reunir em torno de uma ideia, de um projeto, de um ideal, ou de um candidato.

E tão triste quanto é não conseguir perceber no horizonte alguém que possa reunir a nação brasileira apresentando uma ideia, um projeto ou um ideal.

Os candidatos que se apresentam não nos representam. Representam nichos de pensamentos, classes econômicas, percepções regionais, visões particulares, e, sobretudo, os interesses dos mesmos grupos políticos e empresariais.

Jair Bolsonaro é o ponto fora de curva até então, mas ainda não é capaz de agregar a sociedade em torno de si. Quando se chega a presidência da república descobre-se que nem o presidente pode tudo.

O povo brasileiro não acredita mais em partidos, em políticos e em políticas. Os que esbravejam não mostraram ter força para motivar o país a se manifestar com a veemência necessária.

Com uma população de mais de 200 milhões de habitantes e um colégio eleitoral de quase 150 milhões de eleitores, levar 2, 3 milhões de pessoas às ruas de 27 estados é uma piada. Significa que entre 1% e 2% do povo está se manifestando.

E isso também colabora com a impunidade. Quem a pratica sabe que o povo não reage.

Eu gostaria, de verdade, de ser otimista para 2018. Gostaria muito de imaginar que começaríamos o ano com condenações e prisões que demonstrassem que existe uma justiça na qual devemos confiar.

Ficaria extremamente feliz se visse cassadas as candidaturas de políticos corruptos, assim como a perda de mandato e prisão daqueles que estão soltos apenas por causa do foro. Mas acho que estou querendo demais.

A impunidade no Brasil parece que ainda levará gerações para ser extinta, o que me leva a crer que não é impossível imaginar que no final de 2018 eu possa escrever um artigo intitulado: O ano de 2018 está acabando. A impunidade não.

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