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Gilmar Mendes, o ministro que não gosta de ser contrariado

Gilmar Mendes, o ministro que não gosta de ser contrariado

Se Gilmar Mendes pudesse, tal qual o dono da bola, que pega a dita cuja e leva para casa quando está perdendo, pegaria a Constituição Federal, enfiaria no sovaco da toga e encerraria a sessão toda vez que está perdendo. Ele é mimado, birrento, grosseiro. O saber jurídico não é sinônimo de nenhum tipo de elegância, nem mesmo social. Certas características, a pessoa não perde, pelo contrário, muitas vezes acentua. A arrogância é uma delas, infla com o poder.

Outra coisa que interfere é o caráter da pessoa. O fato de ter chegado ao mais alto cargo do judiciário brasileiro não significa que se trate de uma pessoa isenta, entenda-se isenção como quiser. Temos visto denúncias de recebimento de propina no Superior Tribunal de Justiça e muito se fala e suspeita de que isso não fica nesse degrau, sobe mais um. E, cá entre nós, eles não cansam de dar motivos para que as suspeitas existam e encontrem respaldo na realidade.

O ministro Gilmar Mendes não aceita ser investigado nem mesmo ter suas informações vazadas.

É óbvio que a divulgação disso é sacanagem de alguém contra a Gilmar Mendes. Mas quem disse que ele não é sacaneável? Quem disse que ele é intocável? Quem falou para esse cidadão que ele não está sujeito aos mesmos tipos de sacanagens que todo cidadão comum está?

Ministro do Supremo Tribunal Federal é funcionário público! Muitíssimo bem remunerado. Tanto que é o teto de referência dos salários do funcionalismo público. E regado a porrilhões de mordomias inimagináveis até para milionários que construíram fortuna, imaginem, trabalhando. Quem ficou rico trabalhando duro não leva vida de nababo nem tem 200 auxiliares e até capinha para puxar cadeira para ele sentar.

Como é possível, no ano de 2019 ainda termos ministros que se dizem cidadãos comuns tendo à disposição um funcionário cuja função é carregar pastas, levar e trazer recados, pegar água e puxar e empurrar cadeira para que eles se assentem confortavelmente. Os caras são incapazes de sentar sozinhos.

O nome disso não é cerimonial ou tradição, é pura babaquice, frescura, coisa que lembra as burguesias nababescas que viviam junto das antigas monarquias.

Como era de se esperar, Gilmar Mendes ficou e está muito puto. Vai ficar muitos dias ainda.

Pediu ajuda para (ou dizemos deu ordem?) Tóffoli apertar a PGR, a Receita Federal e o COAF e providenciar um cala boca geral em quem ousou vazar as informações.

O que estamos assistindo é a deflagração de um confronto aberto entre o judiciário e o ministério da Justiça. Gilmar Mendes vai partir para cima de Sérgio Moro, hoje chefe do COAF e, como todo mundo sabe, seu desafeto.

Não sabemos se de tanto presenciar ou ensinar a estratégia, Gilmar Mendes também resolveu que é perseguido, vazado, violado, e dá show de como se sentir ofendido estendendo essa ofensa a todo o poder judiciário, como se ele, Gilmar Mendes, fosse o próprio poder judiciário. Ele se sente a justiça em pessoa.

Gilmar Mendes é conhecido como o rei do habeas corpus porque é o maior soltador de bandidos desse país. É declaradamente o maior inimigo da Lava Jato do Rio de Janeiro, mandou soltar quase todo político e empresário corrupto que passou pelas mãos do Marcelo Bretas.

Foi flagrado em escuta telefônica autorizada pela justiça em ligação – que ele fez – para o ex-governador do Mato Grosso, seu estado natal, Silval Barbosa que tinha acabado de sair da cadeia para onde tinha ido com autorização de Tóffoli. E ainda se comprometeu a interferir no assunto falando diretamente com Tóffoli.

Em outra escuta telefônica autorizada pela justiça o flagrante foi uma conversa com Aécio Neves, originado pelo senador. Nessa ligação Aécio pedia que Gilmar Mendes tivesse uma conversa com o senador Flexa Ribeiro, para que esse passasse a apoiar o projeto de abuso de autoridade de Renan Calheiros. Mais uma vez Gilmar se comprometeu em ajudar.

Apenas em dois casos Gilmar Mendes prometeu tentar interferir na consciência de um outro ministro do Supremo Tribunal Federal e na de um Senado da república.

Soltou o empresário Jacob Barata 2 vezes em 24 horas, e mais uma terceira vez. Na verdade, ele soltou quase todo mundo que Marcelo Bretas mandou prender nas operações envolvendo empresários no Rio de Janeiro. Só não soltou Sérgio Cabral. O apelido de laxante não foi dado à toa.

José Dirceu está solto pelas mãos de Gilmar Mendes.

E os encontros de madrugada com Michel Temer, esse 3 vezes acusado de corrupção e lavagem de dinheiro pela Procuradoria Geral da República? E a escandalosa absolvição da chapa Dilma/Temer por excesso de provas no TSE? E os patrocínios das empresas da Lava Jato recebidos pelo IDP de Gilmar Mendes?

Gilmar Mendes não é um homem acima de qualquer suspeita. É, sim, um homem de quem há muito do que suspeitar. E esse é o primeiro episódio que joga luz sobre informações pessoais de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Andamos até precisando de um Wikileaks tupiniquim escancarado como o poder é podre.

Acreditem, já sabemos um bocado, mas não sabemos 20% da verdade que está por trás dos últimos 34 anos da história desse país. E possivelmente, principalmente dependendo de ministros da qualidade e do caráter de Gilmar Mendes, nem saberemos.

Junte-se a isso tudo a brilhante ideia do senador Alessandro Vieira, do PPS de Sergipe, que protocolou na sexta-feira, 8 de fevereiro, no Senado Federal, o pedido de criação da CPI da Lava Toga, para investigar o judiciário. Bravos 27 senadores tiveram coragem de colocar sua alcunha na lista que pretende abrir a caixa preta do judiciário. Mas com isso também estarão abrindo a porteira do inferno.

Em outra frente temos o projeto anticrime de Sérgio Moro, que propõe mudar leis e artigos da constituição para combater o crime organizado, à corrupção e a impunidade, realmente igualando a todos nesse país, inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal. E isso não agrada em absolutamente nada nem os políticos e nem os juízes.

Alguém acredita que vai para frente uma CPI Lava Toga no Senado Federal? O Senado tem uma penca de senadores com processos no Supremo Tribunal Federal que serão julgados exatamente por essas togas. Nessa configuração atual, uns dependem dos outros. Os bravos senadores apenas criaram mais uma zona de conflito entre 2 poderes que precisam aprovar e facilitar reformas.

O Supremo Tribunal Federal, nas retrógradas e compromissadas vozes isoladas de alguns de seus membros, já promete resistência. No Brasil são raras as personalidades políticas que tem a nobreza de perceber que suas presenças na vida pública já não colaboram mais com o futuro do país. Mas eles não saem, não querem ser punidos e querem continuar interferindo e roubando.

A sociedade brasileira precisa aprender a reagir e a repudiar esses cidadãos que se consideram incomuns, não importa a função pública que exerçam. Existem pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal nas gavetas do Senado. Está na hora que começar a desengavetar.

Se essa Lava Toga vai mesmo para frente, veremos. Se for, vai precisar de apoio. Sem apoio, vai virar negociação entre investigados, réus e juízes. E Gilmar Mendes não gosta de ser contrariado.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.