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Redes sociais? Já foram. Não dá para chamar hostilidade de social.

Talvez nem todo mundo tenha tido a experiência de usar o falecido Orkut, o dinossauro das redes sociais que talvez tenha cumprido a sua função melhor do que fazem Facebook e Twitter no que tange ao significado de social.

A novidade e ingenuidade do Orkut reaproximava pessoas distantes na geografia e no tempo, agregava através de comunidades que, mesmo políticas, ainda usavam o meio como expressão de esperança.

Tudo bem se alguém achar o meu próprio pensamento ingênuo a esse respeito, afinal é uma leitura pessoal da coisa. Mas a ingenuidade acabou junto com o Orkut, tanto a da ideia de redes sociais, como a minha em relação a esse pensamento. O buraco é mais embaixo.

Facebook e Twitter sucederam com muitíssimo sucesso o finado Orkut. Se o primeiro funcionava quase como um catálogo virtual de amigos, os atuais donos do pedaço, munidos de poderosas ferramentas de análise, põem as pessoas nos seus próprios catálogos. Se no Orkut éramos e contávamos amigos, agora somos e contamos seguidores. E aí começa o perigo.

As redes sociais se transformaram num universo paralelo de universos paralelos que se cruzam. Por exemplo, antigamente conseguíamos definir e entender bem a política dividida em extrema esquerda, esquerda, centro esquerda, centro, centro direita, direita e extrema direita. Com as redes sociais isso não é mais possível.

Hoje tem a extrema esquerda que gosta do Lula e a extrema esquerda que não gosta e não apoia o Lula. Tem a esquerda que é contra a extrema esquerda, mas a favor da extrema esquerda que não apoia Lula. Tem a extrema direita que pensa que Bolsonaro é de extrema direita quando ele mesmo diz que não é. E tem a direita que não gosta do Bolsonaro porque apesar dele se dizer de direita o entendem como extrema direita.

A exemplo do STF, as redes sociais fatiaram a sociedade, em camadas que não conseguem se entender e se apegam até em preposições para tentar destruir, desmistificar, denegrir, ou simplesmente ridicularizar qualquer um que pense diferente do que eles próprios pensam. O respeito pela opinião dos outros, ou ao menos pelo direito dos outros a ter opinião, ultrapassou o limite do razoável.

E a coisa não está só na política. Seja qual for o tema sobre o qual se comente, a chance de ter de volta um comentário agressivo ou opressivo é enorme. Se você fala que gosta do azul os “gostadores” de verde te chamam de idiota. Se você gosta de sanduíche, até dentro do seu próprio círculo social vai ter um ou mais que vai tentar parecer superior te hostilizando de alguma maneira.

Quando comecei a usar o Twitter me deparei com uma mensagem sobre dar retwittes (ato de compartilhar o Twitter de alguém, também conhecido como RT) que era comum em alguns perfis, inclusive de muitos jornalistas, que dizia assim: Dar RT não significa endossar. E eu comprei aquela ideia no primeiro momento, entendi que queria dizer que disseminar informação não significa concordar com ela. Fez sentido no primeiro momento. Mas é um ledo engano.

Quando se compartilha uma mensagem está se concordando com ela, porque não faz nenhum sentido você disseminar uma coisa com a qual não concorda. Quem é contra drogas não compartilha algo que incentiva o uso das mesmas. Quem é contra a pedofilia não dissemina conteúdo que induz à pedofilia. A ideia que dar RT não significa endossar é só uma mentira estrategicamente bem contada que induz ao clique irresponsável, ou teoricamente sem responsabilidade.

Já dei muitos cliques me isentando de responsabilidade. Mas quando vejo a maneira como as pessoas se comportam, como pensam, como respondem, como patrulham, como reagem, entendo que também fui micro responsável por isso tudo que está aí.

Infelizmente, penso que as eleições de 2018 não pacificarão o Brasil, aliás, muito pelo contrário. Apesar de uma aparente guinada à direita, o Brasil ainda corre riscos de uma meia volta à esquerda, e ganhe quem ganhar, haverá um lado perdedor sedento de ódio, e não se sabe à proporção que isso pode tomar e nem as consequências.

Usar as redes sociais como campo de batalha de ideias é absolutamente louvável e necessário, mas se elas não estão servindo a favor da convergência, aliás, pelo contrário, ampliando e amplificando a divergência, cada um de nós precisa parar para pensar no que está fazendo quando compartilha algo no Facebook ou no Twitter, ou no tipo de comentário que faz a respeito da opinião dos outros.

Se não pudermos e não soubermos usar as redes sociais como instrumento agregador, seremos uma sociedade cada vez mais esfacelada, incapaz de construir uma maioria de pensamento que ajude a levar o Brasil a algum lugar melhor.

Não existe extrema esquerda nem extrema direita nas redes sociais. Estamos vivendo o momento da extrema hostilidade. E, na minha opinião, não há nada de social nisso.

Saudades do Orkut!

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Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.