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Ordem, Progresso e uma cama com colchão no meio do caminho!

... e há uma cama no meio do caminho da Ordem e do Progresso!Li recentemente a um relato que uma única pessoa, no caso a mesma que descreveu o fato e sem necessariamente estar preocupada com a ordem, ajudou um casal. Embarcaram uma cama de casal box com um colchão num ônibus público. Na região paranaense (de onde venho) chamamos esse meio de transporte de ‘circular’. O usuário paga pela passagem e tem trânsito permitido até o destino desejado. O trajeto inclui pontos comerciais e residenciais, áreas de lazer, aeroportos, rodoviárias, etc. A cama, que é um móvel, ficou totalmente imóvel no corredor e pagou-se por ela uma passagem (valor considerado um absurdo pela relatora) até o seu destino final: o bom sono de seus donos.

Tentei através do Google várias buscas no intuito de conhecer – pelo menos superficialmente – as regras de transportes de pessoas em ônibus urbanos. Talvez não tenha sido específica o suficiente, mas não encontrei o que procurava. Quis buscar na lei as regras que regulam o transporte de pessoas dentro dos municípios, mas só encontrei entre cidades e estados. E aí resolvi usar do bom senso e da minha suposta sensibilidade nas argumentações. Corro grande risco, na minha exposição, de ser mal interpretada e sei que poderei até ser mal vista (já tive um feedback raivoso e uma sugestão clara que não sou um Ser de Luz). Mas penso diferente da Boa Samaritana que ajudou uma cama box a ficar no meio de um corredor de um ônibus coletivo destinado a pessoas. E o que esperar de um ser sem luz como eu? Minha opinião, é óbvio…

Ficou claro que a condição financeira do casal é precária a ponto de recorrer a um expediente tão bizarro, impróprio e sem ordem como esse para transportar seu valioso e precioso móvel. Não é todo dia que se vê uma cama ‘deitada’ no corredor de um ônibus. E meu desejo é que esse tenha sido o primeiro e o único evento dessa natureza. Mas também sei que não acontece tudo o que desejamos…

Situações como essa abrem precedentes. Com exceções de objetos pessoais, como malas, sacolas, bolsas, mochilas, mochilões, acredito ser improvável que a legislação permita o transporte de bens móveis como sofás, mesas, geladeiras, camas. Isso porque, na minha, quem sabe, distorcida visão, está subentendido que o ônibus urbano é exclusivo a transporte de pessoas. Não de cargas, porque não há compartimentos específicos para elas.

Mas o que esperar de um país que tem um lema tão lindo em sua bandeira – Ordem e Progresso – e que acomoda todos os tipos de situações? O que é atender a necessidade de um casal e seu novo colchão sendo transportado num corredor de ônibus quando um ex-presidente, condenado em várias instâncias, continua solto? O que é não permitir o ir e vir de pessoas num ônibus público com o corredor tomado por um colchão quando um tal Supremo acena com a possibilidade de inclusive fazer voltar um ex-presidente condenado? E o que tem de comum entre um dono de uma cama box que a transportou num ônibus coletivo com um ex-presidente condenado e solto? São pessoas. E sendo pessoas são dignas de compaixão.

Vamos desconsiderar a ordem em favor do humanismo. Logo teremos filas nos pontos de ônibus de fogões, geladeiras, sofás, estantes e tudo mais. O motorista continuará cobrando uma passagem de cada item. Se o passageiro transportar dois deles , por exemplo, serão mais duas passagens. Será, por assim chamar, o preço do frete. Cria-se a partir disso, uma nova modalidade para o transporte de mudanças, muito peculiar de nossa criatividade brasileira. A desordem cria o caos e ela abre caminho para a impunidade em todos os níveis, incluindo a corrupção. Esta não tem a visibilidade de um colchão no meio do caminho. Não tem provas factuais e físicas e com isso consegue ampliar o coitadismo, a vitimização e a pobreza de espírito do homem, favorecendo a impunidade, incluindo de ex-presidente da nossa pátria.

Ainda no relato desse fato, a ‘pessoa da luz’ diz que, provavelmente o casal tenha sido surpreendido com a impossibilidade de entrega da cama pela loja. Talvez sim, talvez não. Para mim isso soa mais como argumentação social barata do que uma escolha racional e consciente do casal ao se decidir pela compra do colchão naquele dia e daquela forma.

Pior que carregar um colchão é dormir num ruim. Uma moradia digna pressupõe um bom e confortável lugar para o descanso, incluindo a qualidade do leito. E faço votos que cada um consiga, elegendo suas prioridades, o melhor e mais aconchegante lugar para dormir.

Não, não durmo em berço esplêndido. Durmo em ambiente legal e construído com o suor, com calos e, em alguns momentos, com dores – pode não parecer aos olhos de alguns (ainda mais com meu posicionamento contrário ao humanismo da Boa Samaritana). Seria leviano, para mim, pensar diferente do que penso em função do meu histórico de vida. E também seria arbitrário da minha parte, querer que a pessoa que ajudou o casal, pensasse diferente e fizesse diferente do que fez. Não só foi feita a boa ação como foi fotografada e publicada. Minhas questões mais contundentes em relação ao ocorrido:

  • O que aconteceu (transporte de móvel em circular) tem respaldo na lei? Pode Arnaldo?
  • Por que estar mais associado com a Ordem da bandeira nacional faz de mim, por exemplo, um ser desprezível e das trevas?

Um dia, passou em frente a minha mesa um diretor da empresa onde trabalhava conversando ao celular. Ele, um pouco alterado, dizia: “-Você está dizendo que é para eu usar o bom senso? Se é isso, meu caro, é porque você não tem ordem em seus critérios e ainda quer que eu o siga?”.

Acredito, piamente, que somente alcançaremos o Progresso quando seguirmos a Ordem.

Por Leila Previati

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Leila Previati