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Ah! A Globo. Essa caso de amor e ódio dos brasileiros.

A Globo não é uma emissora de TV. É uma fábrica de cortinas de fumaça que todo mundo compra.

A Globo não é uma emissora de TV. É uma fábrica de cortinas de fumaça que todo mundo compra.

É curioso como os brasileiros não conseguem decidir firmemente o que sentem pela Rede Globo. Há os que amam de paixão, e não perdem nem os blocos de intervalos comerciais. E há os que a odeiam com o fígado, mas que só perdem mesmo os intervalos.

É praticamente impossível que uma pessoa com menos de 50 anos não tenha interagido com a TV Globo, ou sido influenciado por ela de alguma maneira. A Globo dita hábitos, costumes, gírias, comportamentos, moda, e pensamentos muito antes de qualquer cinquentenário como eu se dar conta de que isso acontece. E faz de nós idiotas úteis, e um bocado de idiotas inúteis também.

A Rede Globo não trabalha com achismos, ela é certeira no que faz e sabe como atingir e manipular sua audiência a seu favor, e a favor dos outros também. E desde sua inauguração fez e faz isso com maestria, a despeito do viés que impõe à sua programação ou do que pensam os que a ela se opõe. Silvio Santos, por exemplo, alugava espaço nos domingos da Globo, mas era um programa longo, familiar e conservador. Deixou de ser idiota útil e passou a ser um idiota inútil.

Sabedora do seu poder, a Globo se permite ser usada pelos governantes de plantão. Não pela ameaça de ter cassada sua concessão, mas em troca de não os ameaçar com sua força de formar opinião e até mesmo mudar uma tendência da opinião pública até mesmo em poucas horas, como fez ao editar o debate entre Collor e Lula em 1989 e destruir Lula do dia para a noite. Lula tem até razão no ódio que sente pela Globo, mesmo esse ódio tendo se tornado pura hipocrisia de lá para cá.

Plim, Plim! E, mais uma vez, é isso que a Globo está fazendo.

Nos últimos 10 ou 12 dias, a exposição do homem nu no MAM de São Paulo é destaque em todas as redes sociais. Na verdade, nem o fato em si, mas a repercussão dele em todos os sentidos. Os internautas gastam repetidos comentários de repúdio ao episódio, mas principalmente contra aqueles que apoiam essa excrecência a que chama de arte. E então os artistas se unem num movimento de desagravo ao fato e a Globo mantém a polêmica em alta, explorando o assunto como pode em cada minuto da sua programação.

E enquanto você gasta seu tempo, seu vocabulário (incluindo o mais chulo) e sua internet falando insistentemente da Globo nas redes sociais, o exército voltou para o Rocinha, senadores e deputados ameaçam expressamente o STF (o qual ninguém confia), a segunda denúncia contra Temer segue velozmente para o arquivo, Nuzman tem prisão preventiva decretada, Battisti, solto, dá entrevista para a própria Globo, a Revista Época entra na cadeia para entrevistar Eduardo Cunha, Serra insiste no parlamentarismo… E só se fala da Globo.

Ninguém mais fala de Lula, que é o primeiro e maior câncer a ser extirpado do Brasil, ou de José Dirceu que continua solto, os de Guido Mantega de quem se descobriu mais 68 milhões em propinas, nem das delações de Palocci e Lúcio Funaro, muito menos da ação que restringe o foro privilegiado que ficou interrompida mais de 100 dias e que ainda não foi pautada para julgamento, o que acabaria com essa indecência que se transformou a política brasileira nas mãos dos civis desde 1985.

Você está preocupado com a Globo, porque é exatamente isso que ela quer. É exatamente isso que os poderosos e corruptos querem. E a Bibi passa a ser a personagem mais comentada no cotidiano das pessoas, jovens traficantes tem na novela um gigantesco incentivo para permanecerem no crime e crianças e adolescentes assistem (porque assistem mesmo) um personagem feminino virando homem e trazendo para essas mentes a ideia de que o sexo de nascimento é só uma convenção social.

Em 1986 estreava o Xou da Xuxa, em substituição ao programa Balão Mágico. Xuxa vinha da TV Manchete, de um relacionamento muito estranho e complexo com Pelé, e de uma carreira de modelo (vamos deixar assim) que incluía um filme pornô no qual ela fazia sexo com uma criança. E Xuxa, de alma arrependida desse lado obscuro, virou a rainha dos baixinhos. E o Brasil adorou e adotou Xuxa. Sem polêmica.

Plim, Plim. Casos de amor e ódio são complicados, especialmente quando o amor vira ódio e o outro lado se mantém absolutamente indiferente.

Não tenho autoridade intelectual ou moral para julgar o que as pessoas pensam ou fazem, muito menos para dizer o que devem fazer ou pensar. Mas não posso me abster de demonstrar a minha preocupação com a falta de lucidez para entender os acontecimentos de maneira mais holística que vejo nas pessoas.

O ponto disso tudo é que a exposição do Queermuseu, o homem pelado no MAM e o movimento dos artistas não são fatos ao acaso, nem autônomos, nem despretensiosos. E a exploração disso tudo pela Globo também não é uma questão de ideologia ou mera perversão. Tudo isso é apenas fumaça tóxica, impedindo que o grosso das pessoas não veja o que está acontecendo do outro lado.

Todo o mundo tem o direito de ser útil ou inútil, de sentir amor ou ódio. Mas ninguém deveria dar ao outro o direito e as ferramentas para ser feito de idiota. A vida não tem intervalos comerciais entre os capítulos. Só é idiota quem quer. Útil, ou inútil.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.