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Carta Aberta à Fernanda Montenegro

Caríssima primeira dama do teatro Fernanda Montenegro

Caríssima primeira dama do teatro Fernanda Montenegro

Tenho 53 anos de idade, de modo que sei quem você é desde a minha primeira infância. Acredite. Não me lembro da novela em si, mas me lembro de Redenção e da minha mãe falando de Fernanda Montenegro com minha avó, quando eu tinha pouco mais de 2 anos de idade. Era ainda a época que as famílias se reuniam para assistir televisão, coisa que nem todo mundo tinha.

Contudo, já com 17 anos, foi a partir da novela Baila Comigo que passei a ter uma noção exata de quem realmente era a atriz Fernanda Montenegro, e do papel que representava ao lado de outras atrizes como Lilian Lemmertz, Rosamaria Murtinho, talentos que não se limitavam ao espaço da televisão e que nem surgiram com ela, tinham luz própria desde o teatro.

Aliás, vi você no teatro em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant. Saí encantado. Um grande amigo há pouco havia me apresentado o teatro como opção de lazer, uma revolução no conceito que eu tinha sobre o ato de ir ao teatro. Fui várias vezes, e dessa tinha ido assistir você.

Os anos foram passando, fui adquirindo minhas convicções pessoais, e mesmo não entendendo que certas pessoas só conseguem ser o melhor de si quando são outra pessoa, por muito tempo evitei misturar os personagens com as pessoas que os interpretam, para não perder o encanto que a arte de representar exercia em mim. Mas eu também fiquei velho, Fernanda, e comecei a me cansar de certas coisas.

Não dá para gostar da atuação de um cara que bate em mulher na vida real. Não dá para apreciar o trabalho de uma atriz que vive entre novelas e clínicas de reabilitação. Não dá para continuar admirando o trabalho de alguém que nos momentos importantes do país, prefere usar toda sua representatividade cultural e social para interpretar um papel progressista sem causa.

Deputados e senadores não são covardes, Fernanda. Eles são coniventes, ecoicos e corruptos. Ficam assanhados quando veem um artista, e mais ainda quando esse artista os adula em função de seus interesses. E em função do benefício da renúncia fiscal do governo em prol da arte, há 15 anos os artistas, inclusive os grandes artistas, renunciam do seu papel cultural em função de pautas ideológicas.

Há muitos anos eu critico o ator Humberto Martins, a quem sempre chamei de decorador de texto e fazedor de caretas, o que não deixa de ser também uma arte. Mas isso não faz dele, na minha concepção pessoal, um ator, como outros tantos que exercem essa profissão sem que realmente o sejam, ou como você foi.

Não escrevo esta carta como protesto, Fernanda. Aliás, acho que nem é à Fernanda Montenegro que devo me dirigir, mas sim à Arlette Pinheiro Esteves Torres, que é a pessoa que existe dentro de você muito antes da Fernanda existir.

Peço a você, Arlette, que pense como seria se uma neta sua de 5 anos estivesse na situação daquela criança no MAM de São Paulo. E não seja artista, não interprete, seja apenas uma avó; e aí torna-se difícil não comparar a simplória Dona Regina com você, uma senhora simples, de valores simples e cristãos, que está sendo acusada de conservadora porque pensa apenas como a avó que estou pedindo que você seja.

Dona Regina não tem nome artístico, não estava ali a convite do apresentador do programa, nem teve a intenção de interpretar nenhum papel ou dizer frases feitas, muito menos de tentar contextualizar o fato ideologicamente. Ela foi apenas uma avó.

Eu sou avô, Arlette, de uma menina também de 5 anos. Eu não repudiei em momento algum o trabalho do artista, mesmo entendendo que ali não tem nada de arte. Meu repúdio foi à mãe daquela criança, que com a autoridade moral de mãe (e não estou dizendo que ela obrigou a filha a nada, autoridade moral implica em confiança) incentivou a filha a tocar naquele homem nu, ignorando o constrangimento que causava à garota ali exposta diante de tantas pessoas.

E agora, Arlette, Fernanda Montenegro, meu repúdio é a você e à pauta que você decide representar aos quase 88 anos de idade, ofuscando o brilho que você soube conquistar com tanto empenho, suor e sacrifício, enquanto viveu vidas que não eram a sua.

Eu sou um nada diante da grandeza de vocês artistas. Um pretensioso escritor de pouco mais de 20 leitores diários cuja opinião vale menos do que a de um jogador de futebol da terceira divisão ou de uma celebridade eliminada no primeiro paredão de um BBB. Mas tive a felicidade de poder ser eu mesmo em todas as situações da minha vida, e sempre recusei papéis que não condiziam com o meu pensamento, fosse ele certo ou errado, o que também se aplica às minhas opiniões.

Muito provavelmente meu pensamento não condiz com o seu, a grande Fernanda Montenegro. Mas espero, de coração, que dentro da Arlette tenha o mínimo de Dona Regina para entender que defender a inocência das crianças não é um ato de conservadorismo, é apenas decência.

Vida longa e prosperidade, Fernanda Montengro, eterna primeira dama do teatro brasileiro.

P.S. – Ficou muito feio uma atriz do seu status gravar um vídeo com um texto claramente escrito por terceiros, provavelmente Paula Lavigne.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.