0

Alexandre Kalil, prefeito de BH, culpado pela tragédia do Vilarinho. Mas é?

Alexandre Kalil, prefeito de BH, culpado pela tragédia do Vilarinho. Mas é?Estava eu voltando da padaria, seis pãezinhos quentinhos, quando parei para tirar um dedo de prosa com o Djalma, porteiro do prédio. Disse ele que “o prefeito Alexandre Kalil assumiu a culpa pela morte da moça que foi engolida por um bueiro sem tampa”. Falávamos sobre o tempo feio, cara de que ainda chove um bocado esses dias, quando ele citou a tragédia da noite do último dia 15 no bairro Vilarinho, em Belo Horizonte.

E o Kalil está certo.

Quando uma pessoa assume a responsabilidade de administrar uma cidade ela se torna responsável por tudo o acontece nessa cidade, inclusive as tragédias, tal qual acontece quando um síndico assume a administração de um condomínio.

Quem assume cargo de comando é responsável pelo agora, e isso inclui os efeitos e defeitos das bobagens feitas anteriormente. Aliás, campanhas para prefeituras e condomínios costumam ser feitas com a promessa de consertar os erros anteriores.

Nesse sentido, Alexandre Kalil fez o que se espera que um executivo faça. Assumiu a responsabilidade não apenas pela tragédia, mas pela irresponsabilidade dos prefeitos anteriores, que não resolveram problemas como esse do Vilarinho, em locais nos quais essas tragédias se repetem há décadas.

Procure agora o síndico do seu prédio e pergunte a ele quando é que será reposta a tampa do ralo da garagem ou do jardim ou do banheiro da sauna ou o espelho do interruptor de um lugar desses. Sou capaz de apostar que 90% dos síndicos dirão que nem sabiam que estava faltando a tal tampa do ralo, e ainda agradecer a informação.

Lamentavelmente, tampas de bueiros são tampas de ralo numa cidade grande, e dificilmente um prefeito conseguirá saber quantas e quais estão faltando, porque são milhares, porque por muitos motivos elas somem, porque as pessoas demoram para informar, denunciar e porque a prefeitura demora a agir, ou apenas não age.

Essa informação unitária só chega ao prefeito quando o bueiro engole a moça. Antes disso ela, a informação, foi engolida pela burocracia, pela corrupção, pelo roubo, pelo descaso, pela imprudência, por improbidade administrativa de gente que, na estrutura de uma prefeitura, poderia ter resolvido o caso e não resolveu.

Ainda que a responsabilidade seja dele, a atitude de Alexandre Kalil chega a ser nobre. Mesmo não gostando de sua figura, de suas controvérsias, e da forma como sempre estimulou uma rivalidade irracional como torcedor e presidente do Atlético Mineiro (obviamente sou cruzeirense), reconheço que sua autenticidade vem de sua honestidade em falar o que pensa sobre o que quer que seja, o que ele fez agora como prefeito.

Não é comum um prefeito fazer isso. É muito mais simples – e o povo aceita – tirar o “seu da reta” alegando que está na prefeitura há apenas 2 anos e não teve tempo de resolver muitas coisas. E não teve mesmo. E nem ficou sabendo.

Tentei explicar isso tudo para o Djalma. Mas não sei se eu consegui fazer o Djalma entender que o prefeito Alexandre Kalil tem culpa, sem que o cidadão Alexandre Kalil seja propriamente o culpado.

Tentei também mostrar ao Djalma que as pessoas roubam as tampas de ferro dos bueiros da cidade, roubam os fios de cobre da iluminação pública, roubam placas de sinalização, roubam portas, janelas e peças sanitárias de órgãos públicos, e que não há prefeito capaz de dar notícia de tudo o que é roubado ou danificado em um único dia na cidade, mesmo sendo o responsável final por tudo isso.

A burocracia, a corrupção, os maus governantes, legisladores, funcionários públicos e a própria população tornam impossível que as tampas de bueiros sejam repostas tão imediatamente quanto somem.

Somos uma sociedade negligente, muitas vezes cúmplice do sistema quando estaciona em local proibido, avança sinal vermelho, estaciona em vaga de deficiente ou idoso, para em cima da faixa de pedestre, faz gato na luz, na água, na TV a Cabo, oferece propina para não levar uma multa no seu carro, negócio ou imóvel, gente que fura fila, que fica com troco a mais, mesmo sabendo que está prejudicando alguém com essas atitudes.

Finalmente, o Djalma disse que concordava comigo. Que eu estava certo. E eu fiquei feliz por ter conseguido passar um ponto de vista mais amplo para ele.

Meus pãezinhos, obviamente, já tinham esfriado, e eu me despedi, desejei um bom sábado de trabalho, me virei para entrar no prédio, e o Djalma falou:

“Mas como fica a família da moça que foi engolida pelo bueiro, porque não é justo, a família da moça está lá chorando. O Kalil falou que a culpa é dele, mas ele está lá no apartamento de luxo dele, não colocou a tampa do bueiro…”

Então eu parei, respirei fundo, me virei para o Djalma e disse: Djalma, o Alexandre Kalil é atleticano, Djalma. Dá para confiar num prefeito atleticano, Djalma?

Não, não dá – disse o Djalma. E agora ele estava satisfeito com o resultado do papo. Djalma também é cruzeirense.

Você pode gostar de ler também

Bolsonaro implodiu a estrutura do poder. O (ainda) congresso dá o troco.

 

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.